Apresentação

O Forlibi surgiu da necessidade de unir as línguas brasileiras de imigração com o objetivo de instaurar um diálogo permanente entre estas comunidades linguísticas, e se propõe a ser um espaço de pesquisa, mediação e articulação política em variadas frentes para o fortalecimento das mesmas. Reunindo falantes e representantes das línguas de imigração e de instituições parceiras, tem como propósito delinear ações coletivas para a promoção das línguas nas políticas públicas em nível nacional.

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Inventário irá promover língua pomerana em nível nacional

Foto: Leonardo Meira

Inventário irá promover língua pomerana em nível nacional

Leonardo Meira

Com um trabalho intenso, de mais de 10 anos, a língua pomerana finalmente será reconhecida no Inventário das Línguas Brasileiras. Bastante discutida, debatida e avaliada, a proposta foi uma das 20 selecionadas no Edital de Chamamento Público do Conselho Federal Gestor do Fundo de Defesa dos Direitos Difusos, do Ministério da Justiça. 

O Inventário da Língua Pomerana (ILP) se alinha à Política do Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL), desenvolvida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e toma por base o Guia para Pesquisa e Documentação, que orienta essa política. 

Sua concepção e proposta de execução é parte de uma parceria que vem se consolidando desde 2007, e que envolve o Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (IPOL), sediado em Florianópolis, Santa Catarina, e instituições e pesquisadores do Espírito Santo, estado onde estão concentradas as comunidades pomeranas focalizadas na proposta. 

Mas o que isso quer dizer? Quer dizer que o pomerano, inicialmente no Espírito Santo, será legitimado como uma das línguas inventariadas nacionalmente, assim como já acontece com as línguas guarani mbyá, talian e asurini do trocará, reconhecidas como referência cultural brasileira pelo Iphan e que fazem parte do INDL. 

A linguagem dos pomeranos já é reconhecida como patrimônio cultural pela Constituição do Espírito Santo e também é língua cooficial em cinco municípios do Estado: Santa Maria de Jetibá, Domingos Martins, Vila Pavão, Pancas e Laranja da Terra. 

O trabalho de inventariar a língua pomerana reunirá conforme a metodologia do INDL, informações sobre a situação sociolinguística atual das comunidades pomeranas, dando especial atenção aos âmbitos de uso e formas de circulação da língua, fotos, mapas, documentos históricos, cultura, entre outras formas de pesquisa. 

O corretor Lourival Berger colocou-se à disposição para contribuir com pesquisa - Foto: Leonardo Meira

Parcerias - Será um trabalho coletivo, em parceria com o IPOL, prefeituras, associações, instituições de pesquisa entre outros. A professora Sintia Bausen Küster, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que está envolvida no projeto, ressalta que a iniciativa do ILP configura apenas uma etapa do trabalho de inventário da língua pomerana, que nesta primeira empreitada abarcará em torno de 13 municípios de maior presença pomerana no Espírito Santo.

Posteriormente, segundo ela, poderá agregar dados de outras regiões do Brasil que também possuem falantes do pomerano. Sintia salienta ainda que assim que o financiamento estiver à disposição, será formada uma equipe de trabalho que envolverá atores locais, ou seja, das próprias comunidades, especialmente falantes. 

É o caso do senhor Lourival Berger Bausen, de 63 anos, um corretor de imóveis, apaixonado pela história e tradição pomerana e que já se “voluntariou” para participar da pesquisa. “Esse projeto é extremamente necessário. Não vamos desaparecer do mapa. Ao contrário, vamos existir, aparecer, nos mostrar para o mundo. Não precisamos ter medo de sermos pomeranos. Precisamos nos orgulhar. Nós existimos”, poetizou Bausen. 

Ele lembrou que a história dos pomeranos quase acabou após a 2ª Guerra Mundial e que, somente ao final dos anos 1980 é que a cultura pomerana foi resgatada. O ILP, através da pesquisa e da disponibilização de conhecimento sobre a mesma, salvaguarda ações de promoção dessa língua na educação, nas artes, na cultura, nas ciências, nos direitos linguísticos e se torna referência cultural brasileira. 

“Essa proposta do Inventário vem em um momento de grande importância no cenário de legitimação da língua pomerana no Espírito Santo, uma vez que já existem outros municípios cooficializados por meio de lei municipal e estadual”, afirma Sintia. 

O Espírito Santo é referência na língua pomerana, mas o idioma também é falado em pequenas comunidades de outros estados brasileiros, como Minas Gerais, Rondônia, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Fora do Brasil há relatos da língua pomerana nos Estados Unidos e também na Austrália. Na Alemanha, a língua, hoje, é praticamente desconhecida. 

Língua pomerana é ensinada em escolas da região
Um dos projetos que visa manter viva a língua pomerana entre os filhos de descendentes é o Programa de Educação Escolar Pomerana (Proepo). Sintia Bausen Kuster, que já foi coordenadora Proepo em Santa Maria de Jetibá, ressalta que o programa, que vinha sendo discutido desde 1991 e passou a funcionar a partir de 2005 nas escolas municipais, foi um dos grandes impulsionadores da tradição e vivência da língua pomerana. 

“Acredito que sem o ensinamento da língua nas escolas essa referência de identidade cultural poderia acabar. Assim como o projeto do inventário, o Proepo vem de uma discussão e debates de longa data por defensores e estudiosos, justamente quando se percebeu que a língua pomerana poderia perder sua identidade. Por isso corremos atrás desse objetivo de manter a língua viva, e inventariá-la significa produzir conhecimento sobre a mesma e reforçar todo o trabalho que já vendo sendo realizado por diferentes instituições, pesquisadores e militantes no intuito de garantir a sua vitalidade”, enfatizou. 

Além de Santa Maria de Jetibá, moradores de Domingos Martins, Pancas, Vila Pavão, Laranja da Terra, Itarana e Afonso Cláudio utilizam a língua no dia a dia das comunidades e nas escolas. "Desde pequenas, as crianças ouvem o pomerano em conversas dentro de casa. As primeiras palavras são, geralmente, em pomerano. Por isso, é importante manter viva nossa língua materna", diz Guerlinda Westphal Passos, coordenadora do Proepo.

"Antes, as crianças tinham receio de vir à escola, porque, muitas vezes, não sabiam falar o português corretamente. Isso aconteceu comigo. Quando fui à escola não entendia nada em português. A professora perguntou o meu nome e eu não sabia responder. Minha prima me deu uma ‘cotoveladinha’ e, em pomerano, disse: 'Fala seu nome!' Só aí respondi. Hoje, acontece o contrário. O pomerano e o português convivem em harmonia para o bem da nossa cultura", conta a coordenadora, que é professora e descendente de pomerano. 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Lançado livro “Pomeranos no Brasil: olhares, vozes e histórias de um povo”

Livro “Pomeranos no Brasil” é lançado no Arquivo Público do Estado do Espírito Santo

Os pomeranos, que chegaram ao Brasil a partir da segunda metade do século XIX, têm hoje a sua língua oficializada, junto ao português, em cinco municípios capixabas. Para abordar a saga desse grupo de imigrantes europeus que escolheu o país em busca de novas oportunidades, foi lançado no Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, nesta quarta-feira (02), às 19h, o livro “Pomeranos no Brasil: olhares, vozes e histórias de um povo”.

A obra é uma iniciativa dos doutorandos do curso de Sociologia do Instituto de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e contou com a participação dos seguintes especialistas e estudiosos: Ismael Tressmann, Joana Bahia, Patrícia Weiduschadt, Regina Rodrigues Hees, Rosemeire Silva de Souza, Ivan Seibel, Maria Verônica Aguilera e os organizadores Sandra Márcia de Melo e Marcos Teixeira de Souza. Nela, os autores discorrem sobre temas como os aspectos da fala, as categorias lexicais e o cotidiano, a cultura, história e identidade dos pomeranos no Espírito Santo, com destaque ao município de Santa Maria de Jetibá e o Rio Grande do Sul.

Pomeranos no Brasil
Na apresentação da obra o professor Jacques d’Adesky destaca que a falta de terras, o excesso de trabalho e a precariedade de direitos foram alguns dos motivos que levaram pessoas da Pomerânia Oriental a buscarem no Brasil uma nova vivência. Entretanto, as condições de pobreza e as dificuldades que encontraram na “terra dos sonhos” não diferiam muito da servidão feudal em que viviam no velho continente.

Segundo d'Adesky o conjunto dos textos presente no livro permite ao leitor observar o assunto através de olhares e ângulos diversos. “Cada uma dessas abordagens levanta questões que se fundem e se complementam. O cruzamento desses trabalhos possibilita desmistificar alguns clichês e estereótipos que persistem como voz corrente até os dias de hoje de que a interação dos migrantes pomeranos foi cordial e harmoniosa com os locais” comenta. 

Informações à imprensa:
Arquivo Público do Estado do Espírito Santo
Jória Motta Scolforo
3636-6117/99633-3558
comunicacao@ape.es.gov.br
Instagram: ArquivoPublicoES

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Pomeranos do Espírito Santo negociam frutas e verduras na língua típica

Reportagem do G1/ES apresenta pomeranos do Espírito Santo negociando frutas e verduras na língua pomerana.

Clique aqui para acessar o vídeo.

Fonte: G1/ES

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Projeto de Inventário da língua pomerana receberá apoio do CFDD/Ministério da Justiça


Língua pomerana é cooficial em cinco municípios do Espírito Santo: Vila Pavão, Pancas, Laranja da Terra, Santa Maria de Jetibá e Domingos Martins - Fonte: Wikipedia.


Projeto de Inventário da língua pomerana receberá apoio do CFDD/Ministério da Justiça

A proposta de inventariar a língua pomerana, uma língua brasileira de imigração, foi uma das 20 propostas selecionadas no resultado final do Edital de Chamamento Público CFDD (Conselho Federal Gestor do Fundo de Defesa de Direitos Difusos) nº 01/2015 (acesse o edital aqui). O projeto será desenvolvido pelo IPOL em parceria com instituições e pesquisadores do Espírito Santo, estado onde estão concentradas as comunidades pomeranas focalizadas na proposta.

Segundo a página do Ministério da Justiça (ver aqui), foram inicialmente recebidas 897 propostas pela Secretaria-Executiva do CFDD, das quais foram selecionadas 458 propostas para análise de três Comissões de Avaliação compostas por Conselheiros do CFDD. Uma comissão responsabilizou-se pela Chamada I (Promoção da recuperação, conservação e preservação do meio ambiente) e selecionou 6 propostas. A segunda comissão ficou responsável pelas Chamadas II (Proteção e defesa do consumidor) e III (Proteção e defesa da concorrência), selecionando outras 6 propostas. Já a terceira comissão foi responsável pelas Chamadas IV (Patrimônio cultural brasileiro) e V (Outros direitos difusos e coletivos) e selecionou mais 8 projetos, dentre os quais a proposta do IPOL, de nº 022647/2015, cujo projeto intenta "realizar inventário da língua pomerana, língua de imigração brasileira (ILP), tomando por base o Guia para Pesquisa e Documentação do INDL". Há mais 6 propostas para composição de cadastro de reserva.

Confira aqui a relação completa com as propostas selecionadas como prioritárias e em cadastro de reserva.

Ainda segundo o informe da referida página, os projetos selecionados para as Chamadas IV e V, "envolvem as temáticas de valorização de línguas crioulas, de inventário nacional de sinais-termos do patrimônio histórico e artístico em linguagem brasileira de sinais (LIBRAS), da variedade e diversidade dos falares sergipanos virtuais, da modernização de conselhos tutelares da criança e do adolescente para o combate ao trabalho infantil e a promoção da igualdade racial, da restauração de ruínas históricas, da preservação de acervos históricos, do registro e publicação de linguagem de imigrantes africanos utilizada por comunidades remanescentes de quilombos, de inventário da língua pomerana, de restauração e revitalização de sítios arqueológicos, bem como da formação e ação cultural com base na preservação do patrimônio histórico-cultural dos pontos de vista humano/ambiental/arquitetônico".

O Edital de Chamamento Público CFDD nº 01/2015, uma iniciativa da União, por intermédio do Ministério da Justiça, representado pelo CFDD, teve por objetivo o chamamento público para apresentação de Propostas de Trabalho que versassem sobre "a promoção e reparação de bens e direitos relacionados ao meio ambiente; ao consumidor; ao valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico; à ordem econômica e a outros interesses difusos e coletivos".

Fonte: e-IPOL

sábado, 8 de agosto de 2015

Os pomeranos: um povo sem Estado finca suas raízes no Brasil

Registro de imigrantes pomeranos (sem data e local). Foto: pmsmj.es.gov.br

Os pomeranos: um povo sem Estado finca suas raízes no Brasil

Por Gustavo Barreto*

Imigrantes oriundos de Pomerânia tiveram de fugir de crises e perseguições sucessivas na Europa para tentar refazer sua vida no Brasil, único país do mundo onde ainda se fala regularmente o idioma pomerano.

A imigração em algumas regiões do Brasil passa praticamente desapercebida da imprensa dos grandes centros urbanos, como é o caso dos milhares de pomeranos que vivem atualmente no Estado do Espírito Santo. A Pomerânia, que não existe mais no mapa da Europa, era uma região localizada ao norte da Polônia e da Alemanha, na costa sul do Mar Báltico, pertencente ao Sacro Império Romano-Germânico até o começo do século XIX, tornando-se posteriormente parte da Prússia e, mais tarde, terminada a Segunda Guerra Mundial, dividida entre a Polônia e a Alemanha.

Conforme registra um artigo da Revista de História da Biblioteca Nacional, seus descendentes imigraram sobretudo para colônias nos EUA, no Canadá e, principalmente, no Brasil. Os pomeranos se estabeleceram, já a partir do início da segunda metade do século XIX[1], principalmente em quatro estados brasileiros: Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Rondônia[2]. E é justamente no Espírito Santo que está uma das maiores colônias pomeranas do mundo: cerca de 140 mil pessoas[3], a maioria morando em Santa Maria do Jetibá, na região serrana capixaba, a cerca de 80 quilômetros de Vitória. Em todo o Brasil, há cerca de 300 mil pomeranos.

Atraídos com a tradicional promessa, por parte do governo imperial, de se tornarem proprietários agrícolas, os pomeranos tiveram que trabalhar nas terras de brasileiros. “Só mais tarde receberiam do imperador pequenos lotes e galinhas. Só contavam uns com os outros e não falavam o português”, diz Nilton Capaz, secretário de Turismo e Cultura de Santa Maria do Jetibá[4].

Durante a Segunda Guerra, os pomeranos foram confundidos com nazistas e duramente discriminados. “Na Vila Pavão, suas propriedades foram invadidas, livros e documentos foram destruídos e as mulheres sofreram abusos. Os agressores eram conhecidos como ”bate-paus”, uma espécie de milícia formada por civis e militares”, registra a RHBN[5]. “Era impossível falar pomerano sem ser confundido com os admiradores de Hitler”, conta Nilton. Uma dupla ignorância, esclarece o o etnolinguista Ismael Tressman, autor de um Dicionário Português-Pomerano, já que o pomerano e o alemão são línguas distintas, com os pomeranos falando um idioma cujo tronco linguístico é mais próximo do inglês e do holandês.

“Diversas campanhas pela nacionalização dos imigrantes germânicos tiveram impactos muito negativos, principalmente sobre as gerações mais jovens. As perseguições e humilhações públicas por ocasião da Segunda Guerra àqueles que tinham alguma relação com a Alemanha afetaram de maneira particular as comunidades pomeranas, principalmente quando foram forçadas a entregar seus livros para incineração e adotar o uso obrigatório da língua portuguesa nas escolas e nos templos”, diz Hilda Braun, coordenadora-geral da Associação da Cultura Alemã do Espírito Santo, em 2013, por ocasião dos 154 anos de imigração pomerana na região e do lançamento de uma tradução para o português do livro Pomeranos unter den Kreuz des Südens (Pomeranos sob o Cruzeiro do Sul)[6].

Por conta dessa perseguição, Braun sugere que sejam implementadas “ações afirmativas oficiais” para valorizar as “origens e identidade campesina deste que é um dos povos tradicionais da organização social brasileira”, como uma forma de “resgate da dívida social”. Segundo Braun, o pomerano é um idioma vivo e dinâmico, porém falado apenas no Brasil.

No dia 1o de novembro de 1936, poucos anos antes de os pomeranos – bem como os alemães, italianos e japoneses – se tornarem quase que subitamente “inimigos” por conta do preconceito linguístico, um artigo do jornal Correio Paulistano enaltece a Alemanha como um país “de belleza magnificente e incomparavel que atrae e captiva os corações”[7]. Em um trecho, registra o jornal paulista (com grifos meus): “A leste do [rio] Elba, no Mecklenburgo e na Pomerania, habitavam os ostrogodos, vandalos, godos e burgundos, que tinham emigrado no seculo III para as bandas do oeste em busca de terras ferteis”. E continua: “Do seculo VI até os seculos X e XII estes povos voltaram a atravessar o Elba, expulsando pouco a pouco as tribus eslavas – obotritas e sorabes, pomeranos e polacos”.

Artigo de página inteira do jornal Correio Paulistano, no dia 1o de novembro de 1936, registra os antepassados dos pomeranos. Imagem: reprodução

A descrição da Alemanha como um verdadeiro paraíso na Terra, realizada provavelmente por um divulgador do país no Brasil – assina o artigo Ludwig Kapeller – tem uma curiosa descrição dos alemães de uma determinada área do país: “Os habitantes são tão simples como toda a paizagem da ilha [no Mar Báltico]. São frisões de bellos olhos azues e cabellos louros, muito pouco faladores, a ponto de só chegarem a abrir a bocca para dizerem coisas sensatas e verdadeiras. Por isto mesmo, é gente em quem se pode confiar”.

Já no contexto da Segunda Guerra, em 1940, uma edição do jornal O Imparcial dá uma breve ideia acerca da xenofobia da Era Vargas. O diretor desta publicação é J. S. Maciel Filho, que ficou notabilizado como redator dos discursos de Getúlio Vargas. A capa de O Imparcial de 18 de dezembro daquele ano estampa: “Uma revelação gravissima; Mais de duzentas propriedades onde não se fala portuguez”[8]. O alvo: os pomeranos e alemães do Espírito Santo.

Trecho da capa de 'O Imparcial' de 18 de dezembro de 1940

A curta nota – publicada contudo com destaque – informa que o Serviço Nacional de Recenseamento fora informado por um de seus agentes que, em uma “longa faixa do Estado do Espírito Santo” pelo qual ele estava encarregado, com cerca de 425 quilômetros, não havia “um só indivíduo” que falasse português. A área fora identificada pelo jornal: o distrito de Jequitibá, no município de Santa Leopoldina. Trata-se, justamente, do atual município de Santa Maria de Jetibá[9], anteriormente mencionado. Atualmente, o slogan da cidade é “O Município mais pomerano do Brasil”, com uma versão da frase escrita em pomerano.

Para realizar o censo, diz o jornal em tom de alerta, o agente teve de contratar intérpretes pomeranos e alemães. O jornal continua: “Segundo observação com autoridades censitárias naquelle Estado, tal é o alheiamento desse nucleo colonial ao meio brasileiro que os próprios decendentes dos colonos, nascidos aqui, tambem não falavam nem entendem a lingua portugueza”. E conclui: “D’agora em deante, segundo comunica o Serviço de Recenseamento, aquella região ficará incluida nas cogitações que o assumpto merece”.

As cidades “pomeranas”, registra a Revista de História da Biblioteca Nacional, eram em 2008 os maiores expoentes na agricultura do Espírito Santo, destacando-se pela produção de ovos – então a segunda maior do país[10]: “A cultura não só foi preservada, como vem sendo valorizada. Há grupos de dança folclórica e música tradicional[11]. Os rituais de casamento são bem característicos, com festividades que começam cerca de um mês antes da cerimônia. E desde 2005 o Proepo (Programa de Educação Escolar Pomerana) ensina pomerano a crianças e jovens de cinco municípios. Para os da zona rural, acostumados somente à língua ancestral, o reforço é em português”.

Foto de grupo folclórico pomerano no Espírito Santo, em maio de 1991. Foto: ospomeranos.com.br

Em meados do século XX, um grupo de famílias de agricultores pomeranos migrou internamente do Espírito Santo para Rondônia. A migração ocorreu no final da década de 1960, com mais problemas: ao tentar chegar no município de Espigão do Oeste, quase divisa com o Mato Grosso, depois de enfrentar muitas dificuldades no caminho, tiveram de enfrentar uma “corrupção endêmica” dos tempos da ditadura civil-militar.

Segundo um dos pioneiros da travessia, Martino Tesch, relatou a um meio de comunicação de Rondônia em 2014, além de terem sido obrigados por policiais a entregar todas as suas economias em dinheiro, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), então sob comando de interventores do regime ditatorial brasileiro, fez com que os agricultores perdessem grande parte de suas terras a partir de uma determinação fundiária. As terras de cerca de 200 famílias que cultivavam milho, feijão e arroz foram cortadas ao meio. Conforme relato do meio de comunicação local, News Rondônia[12], na tarde do dia 29 de abril de 1974 uma patrulha formada por 15 policiais invadiu acampamentos, espancando homens, mulheres e crianças, destruindo ranchos e quebrando utensílios domésticos, além de aprisionar diversos colonos.

Caminhoneiros enfrentavam atoleiros na BR-364. Foto: newsrondonia.com.br/Acervo de Martino Tesch

O conflito agrário, conta o periódico local, chegou a Brasília por meio de um deputado do MDB (o partido legalista da oposição), Jerônimo Santana, que denunciara na tribuna do Congresso Nacional e junto às autoridades a situação. O relato do periódico fala por si só:

Por determinação do presidente, um grupo de agentes do Serviço Nacional de Informações (SNI) deslocava-se até Espigão para investigar e apresentar um relatório sobre os conflitos naquele distrito. Ouviram dezenas de pessoas e retornaram a Brasília, apresentando um relatório no qual fazia constar que ali residiam trabalhadores rurais e famílias perseguidas e taxadas de “agitadoras e comunistas” pelos governantes do Território.

O oficial que redigiu o relatório ao presidente diria: “São pacíficos, trabalhadores branquinhos, que nem o senhor”. Numa canetada só, Geisel exonerava o então governador do extinto Território, Theodorico Gahyva, e o executor do Incra, Sylvio Gonçalves Faria, apaziguando os ânimos na região.

Com recomendação expressa para tratar bem os agricultores de Espigão do Oeste, o presidente nomeava Humberto da Silva Guedes, em substituição a Gahyva. Desde então, os conflitos acabaram e mais tarde o governador Jorge Teixeira visitava frequentemente a região.

Ainda no século XIX, os primeiros pomeranos contaram, pelo menos na teoria, com a boa vontade das autoridades imperiais, pelas mesmas razões já amplamente documentadas aqui: eram brancos, europeus e majoritariamente agricultores. É o que demonstra, por exemplo, um editorial do jornal O Cruzeiro, publicação sediada no Rio de Janeiro e que durou apenas um ano. O jornal dá destaque aos pomeranos em sua edição de 28 de janeiro de 1878, sob o título “Colonisação Pomerana”[13], seguido dos dizeres Res non verba (em latim, “Fatos e não palavras”, pedindo ação imediata para a questão).

Chamando atenção para a importância de “novos braços” para a lavoura, o editorial argumenta, em tom de lembrete, que os europeus poderiam enriquecer a lavoura “pelos processos e machinas conhecidos na culta Europa e tão familiares aos seus agricultores”. Fomentar a boa imigração por meios diretos e indiretos, diz o texto, “é hoje uma necessidade imprescindivel para o progresso do paiz”. Em pelo menos uma coisa o editorial havia acertado: os pomeranos sempre foram historicamente vinculados à agricultura familiar.

O alerta sobre o risco de lançar mão de políticas migratórias insatisfatórias veio por meio da citação das palavras do ministro da Agricultura, citado pelo O Cruzeiro: “Se o colono destinado á vida agricola não encontrar á sua chegada ao paiz, na tutella do governo ou dos proprietarios e capitalistas um auxiliar intelligente que dirija seus primeiros passos, que o guie na escolha de uma cultura productiva, em vez de um homem feliz, membro util ao Estado, tornar-se-ha um ser inutil e ira augmentar a classe dos proletarios que dão crescido numero de descontentes tão prejudiciaes ao paiz”.

O jornal 'O Cruzeiro' dá destaque aos pomeranos em sua edição de 28 de janeiro de 1878, sob o título 'Colonisação Pomerana'

O editorial afirma que o ministro adotará medidas “promptas e adequadas a facilitar a vinda de immigrantes e seu consequente estabelecimento no paiz”, passando a “lembrar” algumas das medidas que o próprio jornal considera adequadas. Uma delas seria a de subvencionar a imigração dos “russos-allemans da seita protestante” que almejam vir ao país para se unir a parentes já estabelecidos no Rio Grande do Sul, onde – segundo o editorial – “gozam de um bem estar melhor do que aquelle que desfructavam na mãe-patria”.

Outra medida “não menos importante” é a de “auxiliar” – como o editorial chama as subvenções estatais – a imigração de “allemans da provincia Pomerania”, garantido-lhes passagem para que possam se estabelecer no Brasil. Sobre os pomeranos – que, como já destacamos, não eram alemães –, o editorial destaca: “A melhor e mais numerosa classe de imigrantes allemães que temos recebido nestes ultimos tempos são d’essa provincia prussiana”.

Após explicar como se dá a relação das autoridades brasileiras com as prussianas – sempre por meio de contratos “mais ou menos longos” –, o editorial ressalta que os pomeranos são “laboriosos colonos” e pede atenção para que as autoridades possam garantir, dentro do tempo estipulado nos contratos, os “favores que nossas leis outorgam aos colonos”. E compara: “É mister ter em vista que os agentes e governos da Australia, Nova-Zelandia, Canadá, etc., não sómente sabem conhecer d’essa opportunidade com grande sabedoria tirando d’ella o melhor partido possível para a causa que protegem”.

Pedindo que o cônsul brasileiro em Hamburgo tenha “os meios necessarios para auxiliar e promover a emigração d’esses laboriosos immigrantes em Fevereiro e Março”, o editorial afirma que o Tesouro brasileiro sediado em Londres deve disponibilizar os recursos no tempo certo. O ano de 1876, registra o editorial, registrou um aumento no número de imigrantes, com o Brasil sendo o principal destino de imigrantes alemães na América do Sul.

O editorial dá a fórmula: além da obrigação de o governo tutelar os imigrantes para que estes sejam guiados em seus primeiros passos, a “cultura lucrativa e mercado proximo são elementos essenciaes á prosperidade dos immigrantes agricultores”. Por isso, conclui, é preciso entregar a direção dos estabelecimentos coloniais a um “pessoal conhecedor de suas multiplas necessidades e capaz de encaminhal-os com prudencia, honestidade e intelligencia”.

Como a maior parte dos principais jornais à época, as angústias dos imigrantes ou suas reivindicações raramente eram ouvidas: a imprensa tratava sobretudo de negócios. Com a agricultura como setor-chave do Brasil Império, a discussão – mesmo que contendo eventualmente críticas às autoridades – era sobretudo sobre como atrair cada vez mais trabalhadores “laboriosos” e “morigerados” – para usar duas das mais comuns expressões da época –, europeus do centro e do norte do continente, agricultores e preferencialmente em família.

Notas:

1 Ver, por exemplo, http://www.labeurb.unicamp.br/elb/europeias/pomeranos_brasil.htm e http://www.pmsmj.es.gov.br/pg/24522/o-municipio-154-anos-da-imigracao/, parecendo que a data mais correta para a chegada dos pomeranos é de fato na segunda metade da década de 1850.

2 Segundo matéria de um jornal local, 15 mil dos 40 mil habitantes do município de Espigão do Oeste, em Rondônia, são descendentes de pomeranos, constituindo a maior comunidade pomerana na Amazônia. A cidade conta com um programa de rádio em pomerano e o apoio de um vereador descendente dos pomeranos. Vide http://www.newsrondonia.com.br/noticias/maior+colonia+de+pomeranos+da+amazonia+vive+em+rondonia/46451

3 Segundo um pesquisador pomerano da UFES, vide http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2014/07/noticias/cidades/1492216-a-luta-para-manter-viva-a-tradicao.html

4 Em registro na RHBN em setembro de 2008, disponível em http://www.revistadehistoria.com.br/secao/em-dia/a-pomerania-e-aqui

5 Id.

6 Vide http://www.pmsmj.es.gov.br/pg/24522/o-municipio-154-anos-da-imigracao/

7 Kapeller, Ludwig. Vamos visitar a Alemanha? Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=090972_08&pagfis=15021&pesq=&url=http://memoria.bn.br/docreader#

8 Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=107670_04&pagfis=4379&pesq=&url=http://memoria.bn.br/docreader#

9 Vide http://www.pmsmj.es.gov.br/pg/24517/o-municipio-historia/

10 RHBN, op. cit.

11 Ver, por exemplo, http://www.ospomeranos.com.br

12 Acesse a matéria em http://www.newsrondonia.com.br/noticias/maior+colonia+de+pomeranos+da+amazonia+vive+em+rondonia/46451

13 Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=238562&pagfis=238&pesq=&url=http://memoria.bn.br/docreader#

*Gustavo Barreto (@gustavobarreto_) é jornalista. Acesse também pelo Facebook (www.facebook.com/gustavo.barreto.rio)

Fonte: Dois séculos de imigração no Brasil pela imprensa

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Ensino do pomerano em escolas de Santa Maria de Jetibá (ES) é tema de reportagem na TV Brasil


Conheça o pomerano, idioma europeu falado no interior do Brasil

Em Santa Maria de Jetibá, município serrano do Espírito Santo, grande parte das escolas ensina a língua pomerana. A região foi colonizada por imigrantes que vieram da Pomerania, um território entre o nordeste da Alemanha e o noroeste da Polônia.

Para manter a cultura pomerana, além do ensino nas escolas, a língua é falada dentro de casa, entre os membros das famílias.

Assista à matéria do Repórter Brasil (ou clique aqui):


Fonte: EBC

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Dissertação investiga cultura e língua pomeranas em escola de Santa Maria de Jetibá (ES)

Sintia Bausen Küster (ao centro) e os integrantes da banca de defesa de sua dissertação - Foto cedida por Sintia B. Küster.

Dissertação investiga cultura e língua pomeranas em escola de Santa Maria de Jetibá (ES)

Na última segunda-feira, 13 de julho, Sintia Bausen Küster, aluna do CE/PPGE/UFES, defendeu sua Dissertação de Mestrado intitulada Cultura e Língua Pomeranas: Um Estudo de Caso em uma Escola do Ensino Fundamental no Município de Santa Maria de Jetibá – Espírito Santo – Brasil. A dissertação, orientada pelo Prof. Dr. Erineu Foerste, foi resultado de uma pesquisa desenvolvida em uma escola localizada na zona rural, na localidade de Alto São Sebastião, no município de Santa Maria de Jetibá - Espírito Santo - Brasil, que possui um número expressivo de descendentes pomeranos, estabelecidos na região no final do século XIX. Analisou em uma escola de ensino fundamental, considerando a realidade sociolinguística dos alunos, como diferentes sujeitos, que ali interagem, veem e promovem sua cultura, em especial a língua pomerana. Avaliam-se aspectos do Programa de Educação Escolar a Pomerana (PROEPO) para verificar sua contribuição para a manutenção da língua materna pomerana. 

A banca avaliadora da Dissertação foi constituída pelos professores Drª Gerda Margit Schütz Foerste (PPGE/UFES), Profª Drª Edenize Ponzo Peres (PPGEL/UFES), Profª Drª Letícia Queiroz de Carvalho (IFES) e o Prof. Dr. José Walter Nunes (Unb).

O trabalho destaca-se pelo cunho sócio-político no tocante às considerações sobre a língua e suas implicações no contexto geral da cultura e da vida social da comunidade pomerana no Espírito Santo e do Brasil em suas correlações. 

Dentre os resultados, atribui-se ao PROEPO o mérito da manutenção e salvaguarda desta língua de imigração, ao mesmo tempo em que os sujeitos da pesquisa externam preocupação quanto ao repasse da língua para as futuras gerações, bem como ampliação de debates sobre a difusão da língua pomerana em outras esferas sociais. Impactos sobre a perda da língua para o povo tradicional pomerano ainda são conjecturas, mas pode significar destruição de conhecimentos e saberes tradicionais, transmitidos entre as gerações até os dias atuais.

A partir da temática da pesquisa que analisou como os sujeitos veem, interagem e promovem a sua língua, compreendeu-se que o estudo pode contribuir para a educação escolar intercultural de contextos bilíngues, como práxis de resistência conforme discute (MERLER et al., 2013), que preconiza que os trabalhadores em geral, movimentos sociais, e os povos tradicionais de modo especial, “[...] produzem culturas alternativas como forma de resistência ao projeto hegemônico de desenvolvimento e de educação do capitalismo [...]” (p. 39).

Fonte: e-IPOL 

domingo, 25 de janeiro de 2015

A diversidade linguística como patrimônio cultural


Foto: Marcello Casal Jr_ABr
A diversidade linguística como patrimônio cultural

Ministério da Cultura inicia, por meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, política de reconhecimento das diferentes línguas e dialetos falados no Brasil através de processos de inventários, apoio a pesquisas, divulgação e promoção

Marcus Vinícius Carvalho Garcia

A diversidade linguística encontra-se ameaçada. Estima-se que entre um terço e metade das línguas ainda faladas no mundo estarão extintas até o ano de 2050. As consequências da extinção das línguas são diversas e irreparáveis, tanto para as comunidades locais de falantes, quanto para a humanidade. Essa percepção se encontra na Declaração Universal dos Direitos Linguísticos, elaborada na cidade de Barcelona, Espanha, em 1996, sob os auspícios da Organização das Nações Unidas Para Educação e Cultura (Unesco) e com a participação de representantes de comunidades linguísticas de diversas regiões do planeta. Segundo este documento, a situação de cada língua é o resultado da confluência e da interação de múltiplos fatores político-jurídicos, ideológicos e históricos, demográficos e territoriais; econômicos e sociais. Salienta que, nesse sentido, existe uma tendência unificadora por parte da maioria dos Estados em reduzir a diversidade e, assim, favorecer atitudes adversas à pluralidade cultural e ao pluralismo linguístico.


O Brasil figura entre os países de maior diversidade linguística. Estima-se que, atualmente, são faladas mais de 200 línguas. A partir dos dados levantados pelo Censo IBGE de 2010, especialistas calculam a existência de pelo menos 170 línguas ainda faladas por populações indígenas. Embora não contabilizadas pelo Censo, pesquisas na área de linguística também apontam para outras línguas historicamente “situadas” e amplamente utilizadas no Brasil, além das indígenas: línguas de imigração, de sinais, de comunidades afro-brasileiras e línguas crioulas. Esse patrimônio cultural é desconhecido ou mesmo ignorado por grande parte da população brasileira.

A historiografia do país demonstra que foi necessário considerável esforço do colonizador português em impor sua língua pátria em um território tão extenso. Trata-se de um fenômeno político e cultural relevante o fato de, na atualidade, a língua portuguesa ser a língua oficial e plenamente inteligível de norte a sul do país, apesar das especificidades e da grande diversidade dos chamados “sotaques” regionais. Esse empreendimento relacionado à imposição da língua portuguesa foi adotado enquanto uma das estratégias de dominação, ocupação e demarcação das fronteiras do território nacional, sucessivamente, em praticamente todos os períodos e regimes políticos. Da Colônia ao Império, da República ao Estado Novo e daí em diante.

Tomemos como exemplo o nheengatu, uma língua baseada no tupi antigo e que foi fruto do encontro, muitas vezes belicoso e violento, entre o colonizador e as populações indígenas da costa brasileira e de grande parte da Amazônia. Foi a língua geral de comunicação no período colonial até ser banida pelo Marquês de Pombal, a partir de 1758, caindo em pleno processo de desuso e decadência a partir de então. Foram falantes de nheengatu que nominaram uma infinidade de lugares, paisagens, acidentes geográficos, rios e até cidades. Atualmente, resta um pequeno contingente de falantes dessa língua no extremo norte do país. É utilizada como língua franca em regiões como o Alto Rio Negro, sendo inclusive fator de afirmação étnica de grupos indígenas que perderam sua língua original, como os barés, arapaços, baniwas e werekenas.

Processo similar, ou mais opulento ainda, ocorreu com a infinidade de línguas faladas na África e que foram também faladas no Brasil devido ao tráfico transatlântico. Línguas dos troncos ewe-fon, nagô-iorubá e, principalmente, as bantu foram sendo absorvidas pela língua portuguesa em processo similar ao ocorrido com as línguas indígenas, porém, deixando também sua influência principalmente na fonética, na onomástica e no vocabulário do português brasileiro.

Em outro plano, o Estado Novo, sob o comando de Getulio Vargas, também adotou medidas que geraram impactos nas línguas e culturas das famílias e comunidades imigrantes que chegaram ao Brasil em fins do século XIX. Havia a preocupação, de fundo racialista, com a manutenção da hegemonia da cultura brasileira forjada a partir dos moldes lusitanos. Temia-se a possibilidade de ebulição de movimentos separatistas, que se suspeitava poder aflorar nas colônias de imigrantes japoneses, alemães, italianos, poloneses, ucranianos, entre outras. Foi a escola o principal instrumento de imposição, onde se tornou obrigatório o ensino da língua portuguesa, desestimulando-se, ao mesmo tempo, o aprendizado e a utilização das línguas faladas pelo imigrantes.

Pode-se afirmar que é relativamente recente, do ponto de vista do Estado brasileiro, e mesmo dos Estados nacionais de modo geral, tratar a diferença étnico-cultural e linguística no campo dos direitos humanos. E isso envolve a percepção de que falar ou não determinada língua materna tem que ser uma escolha dos indivíduos, das famílias e das comunidades. Cabe, desse modo, ao Estado, tão somente garantir a liberdade dessa escolha e fomentar políticas voltadas para garantia desse direito.

Línguas como Patrimônio
Na última década tem havido grande mobilização de grupos, de organizações de falantes e de pesquisadores no sentido de associar a diversidade linguística como temática inerente a políticas de cultura, mais especificamente na esfera do chamado patrimônio imaterial. Essa mobilização motivou a elaboração do Decreto Presidencial 7.387/2010, que instituiu o Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL). O INDL nasce como política interministerial envolvendo Ministério da Ciência, Tecnologia e Informação (MCTI), Ministério da Educação (MEC), Ministério do Orçamento e Gestão (MPOG), Ministério da Justiça (MJ), sob coordenação atual do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), enquanto representante do Ministério da Cultura. Tem como princípios reconhecer as línguas como referência cultural brasileira, valorizando o plurilinguismo; apoiar os processos sociais e políticos que visem à promoção das línguas e de suas comunidades de falantes; pesquisa e documentação, bem como gerir um banco de conhecimentos sobre a diversidade linguística.

Um dos principais desafios para o reconhecimento das línguas minoritárias é constituir, com isso, direitos linguísticos, bem como a elaboração de estratégias que visem instrumentalizar as populações de falantes na preservação e na transmissão de seu patrimônio linguístico. Segundo Célia Corsino, diretora do Departamento do Patrimônio Imaterial/IPHAN, outro desafio é fazer do Inventário Nacional da Diversidade Linguística um instrumento includente e não discricionário, de modo que seja possível se inscrever no INDL todas as línguas faladas no Brasil, em sua plenitude ediversidade.

Importa salientar que a abordagem que o IPHAN está desenvolvendo para lidar com a complexidade desse tema é pautada na autodeclaração e na anuência dos grupos e comunidades de falantes, de modo que se aborde as línguas enquanto elementos de interesse cultural e de afirmação de identidades. Trata-se de uma estratégia voltada para a percepção do fenômeno linguístico enquanto produto de diversos fatores de ordem sociopolítica e não necessariamente como objeto de estudo de uma área acadêmica – a linguística –, que possui cânones e metodologias específicas de catalogação e classificação que nem sempre são inteligíveis para ospróprios falantes.

No entanto, acredita-se que o advento da política patrimonial da diversidade linguística chame a atenção para a necessidade de se ampliar os estudos de corte sociolinguísticos, de modo que seja possível levantar com mais exatidão quantas e quais são as línguas faladas no Brasil, bem como qual o tamanho do contingente populacional e quais as necessidades dos grupos de falantes que faz do Brasil um dos principais celeiros do plurilinguísmo na contemporaneidade.

O Vêneto Brasileiro
Outro caso relevante é o talian, uma língua forjada a partir do encontro, ocorrido em terras brasileiras, de imigrantes falantes de dialetos da região do Vêneto, na atual Itália, e que possui expressivo contingente de falantes no sul do Brasil. Atualmente, as línguas e os “modos de fazer” das comunidades que utilizam o talian são mais encontrados nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Há municípios, como Serafina Correa, no Rio Grande do Sul, em que o talian é língua oficial, assim como o português.

Estudos do Grupo de Trabalho da Diversidade Linguística (GTDL) aproximam estatísticas sobre cerca de 500 mil pessoas utilizarem o idioma no Brasil, em diversas regiões. Inclusive, há estações de rádio na região Sul e no sul da região Centro-Oeste em que se transmitem programas em italian. No Rio Grande do Sul, o idioma já é patrimônio cultural imaterial oficial. Ainda sobre a disseminação da língua, em 2013 foi lançada a revista Talian Brasil (talian.net.br). Alora, ou então, como se diz em português, não há motivos para não catalogar o máximo possível a cultura trazida por essas comunidades, pois o idioma já é considerado uma língua nacional brasileira (fonte: revista Talian Brasil).

A Sobrevivência dos Pomeranos
Ocorrem no Brasil atual casos como o da língua falada pelos pomeranos, que imigraram para o Brasil devido à Segunda Guerra Mundial, e que conseguiu manter-se viva em pequenas comunidades do Rio Grande do Sul e do Espírito Santo. Essa língua, em pleno uso e transmissão no Brasil, não é mais falada na Europa Central, sua região de origem. Após a guerra, a região onde ficava Pomerode foi incorporada à Polônia pela força do regime soviético. Quanto à etnia dos pomeranos, praticamente foi extinta e os sobreviventes dispersados pela Polônia. Mas a língua permanece viva no Brasil.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Espírito Santo investe na preservação da língua pomerana

Espírito Santo investe na preservação da língua pomerana

Aula de pomerano em Santa Maria de Jetibá
Idioma originário do norte da Alemanha continua vivo no interior capixaba, onde é língua materna de muitas pessoas. Aulas em pomerano e até um dicionário são iniciativas para a preservação.

Original da região da Pomerânia e hoje pouco conhecido na Alemanha, o pomerano, ou pomerisch, ainda está vivo no Brasil. O idioma é utilizado no dia a dia de muitas comunidades, em especial no Espírito Santo. Iniciativas de valorização ajudam a preservar a língua no estado, que abriga cerca de 120 mil dos estimados 300 mil descendentes de pomeranos no país.

Graças ao Programa de Educação Escolar Pomerana (Proepo), ir à escola já não é motivo de receio para diversas crianças que têm o pomerano como língua materna no município capixaba de Santa Maria de Jetibá. O idioma faz parte do dia a dia da cidade, onde 70% dos 34 mil habitantes são de origem pomerana.

Em 48 escolas do município, cerca de 3,5 mil alunos de até 15 anos participam do programa. Para os alunos da Educação Infantil e das séries iniciais, até o quinto ano, as aulas são ministradas tanto em português quanto em pomerano. Já nas séries finais do Ensino Fundamental, do sexto ao nono ano, os alunos têm uma aula semanal do idioma.

Além de Santa Maria de Jetibá, os municípios capixabas de Domingos Martins, Pancas, Vila Pavão, Laranja da Terra, Itarana e Afonso Cláudio já aderiram ao Proepo. Segundo a coordenadora do programa, Guerlinda Westphal, já se estuda ampliá-lo para toda a rede estadual.

Para Westphal – que é professora, descendente de pomeranos e aprendeu português somente na escola, aos 7 anos –, a consolidação e ampliação do Proepo é uma conquista. "É muito gratificante. Nossa cultura está sendo preservada, valorizada. A língua é um tesouro que nós temos", diz.

Atividades escolares ajudam a preservar idioma e cultura
Melhor desempenho escolar
Nas escolas de Santa Maria de Jetibá que passaram a ter aulas de pomerano, a melhora no desempenho dos alunos foi expressiva. Em 2008, ano de implementação do Proepo, o índice de aprovação no segundo ano (primeira série) das escolas que adotaram o pomerano foi superior a 80%, enquanto nas demais unidades de ensino foram registrados índices iguais ou inferiores a 50%.

O impacto maior ocorre nos anos iniciais de escolarização da criança. De acordo com Westphal, antes, as crianças chegavam à escola envergonhadas e desmotivadas, em especial os alunos da zona rural, onde quase não existe contato com o português.

O programa conta, hoje, com 15 professores itinerantes e seis regentes de classe. Todos eles já eram falantes quando participaram do curso de capacitação ministrado pelo mestre e doutor em etnolinguística Ismael Tressmann. Durante a formação, foram abordados aspectos históricos, culturais e linguísticos do povo pomerano, além das regras gramaticais.

Idealizador do projeto, Tressmann afirma que muito ainda precisa ser feito. "Uma hora de pomerano por semana na escola é pouco", afirma. Para ele, o ensino formal da língua é importante por dois motivos: por garantir seu registro e manutenção e por respeitar os direitos de todo ser humano de ser alfabetizado em sua língua materna.

Registros escritos
Além do ensino regular nas escolas, o pomerano é valorizado também por meio de publicações. Tressman lançou o dicionário enciclopédico pomerano-português, ou Pomerisch-Portugugijsisch Wöirbau. A obra, publicada em 2006, é resultado das pesquisas que ele começou em 1995 e contém 16 mil verbetes.

O professor publicou também o primeiro livro escrito em pomerano e editado no Brasil. Upm Land - Up pomerisch språk reúne textos de autores de origem pomerana sobre a vida no campo, com destaque para temas como agricultura, culinária, fauna e flora.

Antes de pesquisar sobre o pomerano, Tresmann trabalhou oito anos no levantamento de duas línguas indígenas sem grafia, onde adquiriu a experiência para fazer o mesmo com a língua pomerana. O doutor em etnolinguística explica que a proposta da escrita foi baseada na fonologia da língua, entre outros fatores.

Tressman sustenta que, ao contrário do que muitos pensam, o pomerano não é um dialeto do alemão. "São duas línguas que nasceram de modo diferente. A ancestralidade da língua pomerana tem a ver com o holandês, com o vestfaliano e até com o saxão antigo", argumenta. Todas essas línguas descendem do baixo-saxão, ou plattdeutsch, afirma o etnolinguísta.

O pomerano foi a primeira língua de imigração do Brasil a ser co-oficializada, juntamente com o português. Hoje, seis cidades têm o pomerano como língua oficial. São elas: Santa Maria de Jetibá, Domingos Martins, Pancas, Vila Pavão e Laranja da Terra, no Espírito Santo, e Canguçu, no Rio Grande do Sul.

Como parte do processo de oficialização da língua pomerana, foi realizado em Santa Maria de Jetibá um censo linguístico. Mais de 24 mil pessoas responderam ao questionário nas duas etapas do censo, em 2009 e em 2012. "Somos os primeiros a levantar dados concretos do número de falantes da língua pomerana no Brasil", afirma a pedagoga Síntia Bausen, que acompanhou o processo. A previsão é de que os resultados do censo sejam publicados até o final deste ano.

Professores foram capacitados para
lecionar pomerano em Santa Maria de Jetibá
Resgate da língua na Alemanha
No norte da Alemanha também há iniciativas para valorizar o pomerano e alguns dialetos do alemão. É o caso do projeto Pommersches Wörterbuch, na cidade de Greifswald, no estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, que coleta e documenta palavras para montar um dicionário.

De acordo com Matthias Vollmer, chefe do projeto, a presença do plattdeutsch nas escolas e universidades tem aumentado há alguns anos, o que também está relacionado com a Carta Europeia das Línguas Regionais ou Minoritárias, ratificada por Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental.

"Na Universidade de Greifswald, os estudantes de alemão podem ganhar um certificado em plattdeutsch como matéria complementar e futuramente lecionar nas escolas, como disciplina opcional", explica Vollmer. Ele também é professor de plattdeutsch e oferece seminários sobre a história e a literatura de dialetos no norte da Alemanha.

O professor destaca que foram lançados diversos materiais educativos para o aprendizado do plattdeutsch. Também está em andamento um projeto que promove o uso lúdico do pomerano e de dialetos do alemão em jardins de infância em Greifswald.

Pomerano no Brasil e no mundo
Em julho passado, foram comemorados os 155 anos da imigração pomerana no estado capixaba. A língua pomerana é falada também em comunidades de Minas Gerais, Rondônia, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Há relatos de que o idioma é falado também nos Estados Unidos e na Austrália. Na Alemanha, ele é hoje praticamente desconhecido. Segundo Vollmer, o pomerano é usado em algumas zonas rurais do norte do país, no estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental – principalmente pelos idosos, na família ou entre amigos.

O pomerano era uma língua oficial e escrita até o ano de 1600, de acordo com Tressmann. A língua era bastante utilizada no comércio marítimo na Idade Média. A palavra Pomerânia designa, até hoje, uma região no nordeste da Alemanha e noroeste da Polônia.

De acordo com uma pesquisa publicada em 2007, o plattdeutsch, que deu origem ao pomerano, é falado hoje, com fluência, por 2,6 milhões de pessoas no norte da Alemanha, onde outras 8 milhões o compreendem muito bem ou bem. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, cerca de 400 mil pessoas falam bem o plattdeutsch.

Fonte: DW

terça-feira, 15 de julho de 2014

População capixaba é composta por aproximadamente 145 mil pomeranos

A luta para manter viva a tradição

Patrik Camporez | pmacao@redegazeta.com.br
Fotos: Edson Chagas-GZ


Alunos da Escola Estadual de Ensino Fundamental e
 Médio Fazenda Emílio Schroeder reivindicam o ensino
 da língua pomerana dentro da sala de aula.
Cerca de 145 mil descendentes germânicos vivem no Estado do Espírito Santo

A população capixaba é composta por aproximadamente 145 mil pomeranos, a maior parte deles concentrada em comunidades rurais de 13 municípios do Estado, onde vivem do cultivo da terra.

Para manter preservadas suas tradições e costumes, os descendentes germânicos resolveram se unir para, através de um ciclo de reuniões que acontece em todo o Estado, montar uma pauta com diversas reivindicações.

E a principal delas diz respeito a falta de políticas públicas voltadas ao campo, fato que tem levado cerca de 50 % dos jovens dessas comunidades a deixarem suas casas para trabalhar ou estudar em outras cidades, explica o pesquisador Irineu Foerste, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Municípios capixabas com maior concentração de pomerano (clique na imagem para ampliar) - Arte: Genildo
Somado a isto, a ausência de investimentos públicos na agricultura familiar tem dificultado a permanência das famílias pomeranas no campo, alerta o pesquisador, que ainda destaca: “A língua pomerana praticamente desapareceu na Alemanha e na Europa, mas é falada, aqui no Estado, como era falada, lá, há 150 anos. Esse é um capital cultural muito grande, que a gente precisa dar visibilidade”, aponta Foerste, que também faz parte da Comissão Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais.

A estudante Raquela Reetz mora em Santa Maria de Jetibá, tem 15 anos e só foi aprender português aos seis, ao ingressar na escola, já que a única língua falada pelos seus pais é a pomerana.

Moradores declaram amor pelos costumes locais:
 em Santa Maria de Jetibá, onde 80 % da população é descendente
 germânica, moradores têm orgulho de suas origens.
Por abrigar a maior concentração de descendentes no Estado, o município da Região Serrana foi escolhido para sediar a primeira reunião do ciclo de encontros, e Raquela aproveitou a oportunidade para fazer sua reivindicação. “Na minha escola estudo inglês, mas não estudo a língua que aprendi com os meus pais. Não tem como manter nossa tradição sem preservar nossa língua”, cobra.

A lista de reivindicações inclui ainda a cobrança por investimentos na agricultura familiar e melhorias na educação e saúde no campo. Para a pedagoga Vanilda Haese Dettmann, todas essas demandas têm, em comum, o objetivo de fortalecer a permanência do povo pomerano em seu território. “Estamos nos organizando melhor para que as políticas públicas sejam alcançadas. O objetivo é fortalecer a organização dessa cultura”, afirma Vanilda, que é uma das idealizadoras do movimento.

Casas no interior mantêm arquitetura tradicional:
de passagem pela comunidade Ilha Berger,
uma linda casa chamou a atenção da reportagem.
 Nela, mora Dona Maria.
No dia 10 de setembro, vai acontecer um encontro estadual, onde será elaborada uma pauta contendo as principais reivindicações feitas em cada região. Posteriormente, o documento será levado à Brasília. Ao todo, vivem no Brasil cerca de 300 mil pomeranos, metade deles em solo capixaba.

Origem
Os pomeranos são oriundos da antiga região da Pomerânia que, após a Segunda Guerra Mundial, deixou de existir no mapa europeu. Grandes desbravadores das terras capixabas, estabeleceram-se inicialmente na região das montanhas e, posteriormente, no final do século XIX e início do século XX, migraram também para o Norte do Estado, em direção ao Vale do Rio Doce.

Algumas escolas já contam com o ensino
 pomerano: Gabriel Kuster, 10 anos, aprende
 o pomerano em sala de aula, na comunidade
 São João do Garrafão. O avô comemora.
Falar a língua germânica vale no currículo:
 uma loja no Centro de Santa Maria de Jetibá  conta
com 20 funcionários, e todos falam pomerano com os clientes.





























Fonte: Gazeta Online

terça-feira, 24 de junho de 2014

Conheça a história do Evento POMERbr

Breves Palavras Sobre a História do Evento POMERbr

O Evento POMERbr

A proposta de criar um evento Nacional para discutir as questões da cultura, do pertencimento e dos modos de ser dos pomeranos, nasce dentro do contexto da diversidade cultural e tem como pressuposto o Plano Nacional de Direitos Humanos - III (Decreto Nº 7.037, de 21 de Dezembro de 2009.), especialmente nas sua diretriz 10: Garantia da igualdade na diversidade. Esse documento orientador apresenta como objetivos: ‘Afirmação da diversidade para a construção de uma sociedade igualitária; Proteção e promoção da diversidade das expressões culturais como Direito Humano e apresenta como proposição de Ações Programáticas: promover ações de afirmação do direito à diversidade das expressões culturais, garantindo igual dignidade e respeito por todas as culturas’. (PNDH-3, p. 94)

Algumas pequenas ações culturais de registro e de reconhecimento eram executadas nos estados de Rio Grande do Sul e do Espírito Santo em espaços sociais geo-políticos onde habitam pomeranos. Partindo da premissa da Educação Popular que emancipação cultural se faz a partir de reconhecimento de si e dos outros, a proposta da partilha dos olhares de quem somos nós e o que queremos como futuro se colocou como uma necessidade.

Desse modo, o encontro com sujeitos pesquisadores e ativistas culturais foi um caminho natural. Lembro-me muito bem que estava eu em Belo Horizonte apresentando dados da pesquisa sobre os pomeranos da Serra dos Tapes (sul do RS) no ENDIPE 2010, quando ao final de minha apresentação duas pessoas presentes na sala declararam que desejavam falar mais comigo sobre o trabalho. Aguardei então a finalização das demais apresentações e iniciamos o diálogo sobre a questão da cultura pomerana.
Eram duas mulheres vindas do estado do Espírito Santo especialmente para conhecer o trabalho que realizávamos. Quando se apresentaram senti nelas uma certeza, de que eram bem intencionadas e que, ao que tudo parecia, seriam parceiras de uma proposta que eu já vislumbrava a um tempo: a necessidade de reunir os grupos pomeranos espalhados pelo Brasil a fim de problematizar nossa condição na história a partir do registro da memória da cultura com vista a produção de um futuro desejado e necessário. Hoje percebo que minha primeira impressão foi acertada.

Sentados em uma roda de três pessoas, delineamos o que seria o surgimento do POMERbr. Expliquei a elas que estava promovendo no Rio Grande do Sul um Seminário para compartilhar as ações de registro da cultura local tendo a escola como instrumento, tratava-se do evento 'Seminário Cultura e Diversidade: Educação e memória Pomerana no Sul do Sul' que veio a ser denominado I POMERsul. Comentei com elas que tinha conhecimento de trabalhos de pesquisa e de registro da cultura pomerana no ES. E, imaginava ser possível, um dia, realizar um encontro que reuni-se sujeitos interessados em debater a questão pomerana sob os aspectos da memória, da história, da política, da educação e das perspectivas de futuro.

Após breves diálogos nos demos conta de que nossos propósitos eram os mesmos. E dessa conversa inicial ficou uma certeza entre nós: vamos realizar esse encontro. Declarei que lá no RS tínhamos um grupo grande de pessoas envolvidas. Elas declararam que também no ES havia um movimento intenso de pesquisas e ações com o tema. O encontro ia então germinando, ainda não tinha nome, era só uma idéia. Havia uma certeza: vamos realizá-la. E lembro que comentei com elas a necessidade de termos essa iniciativa e que ela custaria muito tempo de nossas vidas e alguns recursos econômicos, mas que a faríamos com poucas, algumas ou muitas pessoas. Que se tivéssemos 5 pessoas discutindo essas questões já teríamos alcançado êxito em nossas proposições.

Nesse encontro estavam: Prof. Carmo Thum, Profa. Síntia e Profa. Adriana V. G. Hartuwig. Falamos de vários nomes de sujeitos que conhecíamos pessoalmente ou por produção bibliográfica que seriam possíveis parceiros nessa empreitada. Me parece que o princípios dos camponeses de que acordo firmado é acordo cumprido se estabeleceu com plenitude. Cada um rumou para sua residência, seus afazeres e compromissos e após alguns dias iniciamos conversas por e-mail, tentando dar forma concreta as idéias lá germinadas. 

E é desses encontros e propósitos que surge POMERbr. O que mais tenho a dizer sobre essa história? Pouco e muito, mas já é uma história compartilhada com mais de uma dezena, que se transformou em centena em pequeno espaço de tempo e que hoje é história de muitos e um fazer coletivo que se espraia por SC, RO, MG. Desejo é que a proposição inicial seja sempre nossa referência: coletivamente necessitamos nos questionar e problematizar quem somos, porque somos e o que desejamos ser enquanto grupo cultural. De resto, a história depende do que agora já é o III POMERbr e do que pode ser, talvez, um POMERMUNDUS.

Manter sempre a clareza de que somos mistura, que só somos na inter-relação com os outros, que somos produtos de muitas expressões e que é na diversidade e no diálogo que encontraremos a possibilidade de futuro.

Escrevo esse relato uma manhã fria de abril, nessas de início de inverno no RS, e casualmente olho para o calendário e dou-me por conta que é 16 de abril de 2013.

Um abraço a todos.
Prof. Dr. Carmo Thum