Apresentação

O Forlibi surgiu da necessidade de unir as línguas brasileiras de imigração com o objetivo de instaurar um diálogo permanente entre estas comunidades linguísticas, e se propõe a ser um espaço de pesquisa, mediação e articulação política em variadas frentes para o fortalecimento das mesmas. Reunindo falantes e representantes das línguas de imigração e de instituições parceiras, tem como propósito delinear ações coletivas para a promoção das línguas nas políticas públicas em nível nacional.

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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Pomeranos do Espírito Santo negociam frutas e verduras na língua típica

Reportagem do G1/ES apresenta pomeranos do Espírito Santo negociando frutas e verduras na língua pomerana.

Clique aqui para acessar o vídeo.

Fonte: G1/ES

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

1º Encontro Nacional dos Municípios Plurilíngues abre inscrições para monitoria

1º Encontro Nacional dos Municípios Plurilíngues abre inscrições para monitoria

Eduarda Hillebrandt*

O 1º Encontro Nacional dos Municípios Plurilíngues (ENMP), que ocorrerá entre os dias 23 e 25 de setembro, no térreo do Bloco B do Centro de Comunicação e Expressão (CCE) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), está com inscrições abertas para monitoria. Alunos de graduação e pós-graduação interessados devem enviar email com nome, curso e número de matrícula para o endereço 1enmp2015@gmail.com , com cópia para evanesju@gmail.com . Monitores são isentados da taxa de inscrição, recebem certificado e camiseta.

O 1º ENMP propõe uma troca de experiências sobre a política de cooficialização das línguas no Brasil, além discutir o panorama, mapeamento e regulamentação da diversidade linguística no país. Desde a inciativa do município amazonense de São Gabriel da Cachoeira em 2002, que deu caráter cooficial a três línguas indígenas, 16 municípios brasileiros já cooficializaram línguas. Em Santa Catarina, a língua alemã em Pomerode e o dialeto germânico Hunsrückisch em Antônio Carlos tornaram-se cooficiais em 2010.

Realizado pelo Instituto de Investigação e Desenvolvimento de Política Linguística (IPOL) em parceria com a UFSC, o evento reunirá gestores municipais, líderes de associações culturais, pesquisadores e membros de comunidades linguísticas brasileiras. O encontro tem o apoio do Observatório de Políticas Linguísticas  da UFSC; do Macroprojeto ALMA-H, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); e do Projeto Entrelínguas, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Mais informações no site do evento.

* Eduarda Hillebrandt é Estagiária de Jornalismo/Agecom/UFSC.

Contacto Social – El informativo de los trabajadores (Canal Capital, Colombia)


Contacto Social – El informativo de los trabajadores (Canal Capital, Colombia)

Este Domingo 10 am por Canal Capital (Colombia) no se pierda Contacto Social -  El informativo de los trabajadores.


Fonte: e-IPOL

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Livro escrito pelo alemão Max Humpl em 1918 ganha versão em português e resgata parte da história de Blumenau

Entre diários de família, correspondências e livros de receitas, vários manuscritos aguardam tradução - Foto: Rafaela Martins/Agência RBS).

Tesouro revisitado
Livro escrito pelo alemão Max Humpl em 1918 ganha versão em português e resgata parte da história de Blumenau

Manuscrito estava entre os documentos que aguardam tradução no Arquivo Histórico da cidade

Camila Iara

No início do século 20, Altona era um termo carinhoso usado para se referir a um bairro blumenauense que, mais tarde, seria batizado de Itoupava Seca. Conhecida na época pela independência econômica, principalmente no setor metalmecânico, em 1933 a região também emprestou o nome para uma das empresas mais tradicionais da cidade até hoje: a Electro Aço Altona. Quase cem anos depois, um livro viabilizado pela fábrica em parceria com o Fundo Municipal de Apoio à Cultura e a EdiFurb vai revisitar, através do olhar do professor alemão Max Humpl, a história das primeiras levas de imigrantes que desembarcaram no Vale do Itajaí. 

Escrita originalmente na grafia sütterlin, utilizada na Alemanha entre 1915 e 1970, a obra Crônica Do Vilarejo De Itoupava Seca: Altona desde a Origem até a Incorporação à Área Urbana de Blumenau será lançada nesta quarta-feira, 19/08. O manuscrito, finalizado em 1918, foi doado pela família Humpl ao Arquivo Histórico de Blumenau e acabou nas mãos da historiadora Méri Frotscher e do mestre em Letras Adriano Steffler, que fizeram a tradução — primeiro para o alemão contemporâneo e depois para o português — com a ajuda do alemão Johannes Kramer. 

— É um projeto realizado com muito carinho por uma equipe que tinha como objetivo fazer jus ao trabalho de Humpl, que não pôde ver a publicação em vida. Para nós é uma grande felicidade deixar à disposição tanto dos leigos quanto dos pesquisadores uma fonte tão histórica — comenta Méri.

Acompanhado de farto material fotográfico cedido pelo Arquivo Histórico — as  fotografias e aquarelas originais do manuscrito foram queimados no trágico incêndio que atingiu a Fundação Cultural em 1958 —, o livro mostra o surgimento da cidade por meio de fatos e curiosidades já esquecidos. 

Também fazem parte da crônica biografias e árvores genealógicas dos moradores, além de descrições vívidas da flora, fauna, geografia, política, religião, esporte e cultura de Altona.

— Estou no Arquivo Histórico há muitos anos e me incomodava ver aquele livro grande, de letra bonita, bem organizado e que eu não conseguia ler. A obra traduzida tem uma leitura agradável e nos mostra a Blumenau daquele tempo de uma forma muito precisa. O povo ganha uma preciosidade, e nós, pesquisadores, um novo olhar sobre aquela região e o processo de povoamento da cidade — diz Sueli Petry, diretora do departamento histórico e museológico da Fundação Cultural de Blumenau.

Manuscritos aguardam tradução no Arquivo Histórico
Além do material documentado pelo professor alemão Max Humpl em 1918, outras dezenas de arquivos nas grafias sütterlin e gótica dos séculos 19 e 20 estão à espera de tradução no Arquivo Histórico de Blumenau. Mas a demanda esbarra na falta de mão de obra especializada. Segundo Sueli Petry, diretora do departamento histórico e museológico da Fundação Cultural, não há nenhum tipo de projeto específico para viabilizar esse tipo de trabalho, é tudo feito no improviso:

— Hoje contamos apenas com voluntários que sabem ler e interpretar o alemão gótico e eventualmente se disponibilizam para ajudar o arquivo. São pessoas que deixam o lazer de lado para se dedicar à memória da cidade.

Entre os arquivos doados (e cuidadosamente guardados em uma gaveta na sala da própria Sueli), preciosidades como diários de família, antigas correspondências e até cadernos de receitas remontam a vida de quem habitou Blumenau naquela época. De acordo com Sylvio Zimmermann, presidente da Fundação Cultural, não há em vista a criação de um núcleo dedicado à captação de profissionais que possam viabilizar as traduções:

— Nossa missão é cada vez mais preservar e digitalizar os materiais. O ideal seria ter um programa só para isso, mas não é nossa prioridade agora. 

Vídeo: A historiadora Sueli Petry revela preciosidades e fala sobre a importância dos manuscritos em alemão para a história de Blumenau (assista abaixo ou clique aqui).


Escritor, professor de Letras da Furb e editor executivo de Crônica do Vilarejo..., Maicon Tenfen conta que já houve algumas tentativas, tanto de membros da universidade quanto da Fundação Cultural, de criar um projeto do tipo:

— Infelizmente, nenhum desses projetos vingou. Agora, graças a Méri Frotscher, podemos ler o texto de Max Humpl. É uma forma de entender como pensavam os primeiros habitantes da região, os pioneiros, o pessoal que projetou a cidade, com erros e acertos, para que ela fosse o que é hoje.

Crônica do vilarejo de Itoupava Seca: Altona desde a origem até a incorporação à área urbana de Blumenau
Autor: Max Humpl | Editora: EdiFurb

A Crônica de Max Humpl apresenta-nos uma narrativa sobre o cotidiano e o passado de Itoupava Seca - Altona, desde meados do século XIX até a sua finalização, em 1918, quando a localidade foi incorporada à área urbana de Blumenau. A tradução da versão manuscrita em língua alemã durante a Primeira Guerra Mundial, que jamais chegou a ser publicada, mostra um retrato vívido daquele tempo pretérito ao leitor, quase um século depois.
Categoria: Literatura
ISBN: 9788571142268
Páginas: 227
Medidas: 21,5x27,7 cm
Peso: 0.98 kg
Lançamento: 2015
R$ 60,00 Preço sugerido

terça-feira, 28 de julho de 2015

Aluna da UnB é primeira cigana a concluir doutorado na América Latina

Foto: Marcelo Jatobá/UnB Agência
Aluna da UnB é primeira cigana a concluir doutorado na América Latina

Paula Soria teve de deixar seu grupo, que preza a oralidade e rejeita a escrita, para estudar. Em sua tese, analisa os estigmas atribuídos aos romà na literatura

Marcela D´Alessandro - Da Secretaria de Comunicação da UnB

A tese de 330 páginas e a dissertação, de 112, foram pouco para preencher a necessidade e a vontade de estudar de Paula Soria. Agora doutora em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB), a pesquisadora, que pertence ao grupo romà – nomenclatura para ciganos, ratificada durante o I Congresso Mundial Romani, realizado na Inglaterra em 1971 –, espera que sua história seja exemplo para que outras romani possam trilhar trajetórias acadêmicas sem abandonarem seu povo.

Apesar dos obstáculos que teve de enfrentar para chegar ao título, Paula se prepara para continuar no caminho da pesquisa. "Tem muita coisa para escrever ainda. Meu desejo era começar e não parar nunca mais", afirma Paula, que já pensa em desenvolver outro trabalho, abordando estudos culturais, para aprofundar o tema pelo qual se diz apaixonada.

Oriunda de uma comunidade que valoriza a oralidade e rejeita a escrita, começou os estudos aos 10 anos de idade, quando teve a permissão de seus pais. O combinado era que ela, assim como as outras romani que ingressavam na escola, deixasse os livros para se casar, aos 15 anos. Seu casamento já estava arranjado, mas Paula tinha sede de aprender desde criança.

Para seguir com seu sonho, a menina teve de deixar a casa dos pais e a família romani – de quem pôde reaproximar-se e ganhar algum apoio só depois de muito tempo.  Nessa trajetória, contou com a ajuda de amigos e, posteriormente, do marido não-romà para seguir com os estudos. Terminou o ensino básico, o superior e se formou jornalista na Universidad Nacional Autónoma de Honduras (UNAH). Seguiu pela Argentina e, já no  Brasil, graduou-se no curso de Artes Cênicas da UnB.

"Na minha cultura tem muitos artistas e a gente acaba achando que tem que ser artista também", afirma a romani, com bom humor. "Mas eu sempre gostei de literatura e já na minha graduação comecei a buscar disciplinas nesse campo para entender um pouco mais daquele mundo que me fascinava desde pequena".

Paula Soria (à esquerda) e sua orientadora Sara Almarza - Foto: Marcelo Jatobá/UnB Agência.

No mestrado – realizado no Departamento de Teoria Literária e Literaturas da UnB –, Paula analisou, entre outros, dois romances do rom argentino Jorge Nedich e discorreu sobre a influência das representações literárias na realidade étnica romani e de que forma validaram as imagens negativas sobre os romà; também abordou a dificuldade de ruptura com esses padrões estigmatizados.

No doutorado, deu sequência aos estudos e buscou obras de autores não-romà de diversas nacionalidades que tratavam dos romà com diferentes abordagens – a maioria delas, segundo a pesquisa, preconceituosas e estereotipadas – e livros de escritores romà contemporâneos. De acordo com Paula, estes tentavam desconstruir tais introjeções e construir uma nova identidade.

"Procurei privilegiar o olhar de dentro para fazer algo crítico, mostrar como os romàs pensam. E para que não houvesse tanto estranhamento, tentei fazer uma espécie de tradução do que os escritores apresentam e o que aquilo significa dentro da comunidade", explica Paula.

Sua orientadora nos dois trabalhos, Sara Almarza, diz que foi uma oportunidade de grande aprendizado em muitos assuntos. "Foi uma honra ter orientado essa pesquisa. Tenho 25 anos de Universidade de Brasília e este foi o trabalho de maior envergadura que já fiz", exclama, orgulhosa, a professora.

Paula Soria e a orientadora Sara Almarza mostram a bandeira romani após a defesa da tese no Departamento de Teoria Literária e Literaturas da UnB - Foto: Arquivo pessoal.

Mulheres Romani – Paula Soria lembra que, em boa parte dos grupos, as mulheres ainda são minoria, subalternizadas pelas sociedades majoritárias e por uma cultura interna ainda patriarcal e sexista. "Elas têm que seguir o marido, obedecê-lo, trabalhar só com ele. Em grupos como o meu, as mulheres ainda têm que ir pras ruas ler mãos porque é uma tradição, mesmo que não precise. Então, aquela que consegue romper com tudo isso e ser escritora, traz uma voz muito diferente, de minoria dentro da minoria e que sobressai muitíssimo", analisa a romani que é a primeira mulher "cigana" a concluir o doutorado na América Latina.

Segundo sua pesquisa, antes dela houve um homem rom que também chegou ao título no Brasil e sua temática se referia à Biologia. Nos demais países da América Latina, não há registros de mulheres romani doutoras.

Em sua tese, Paula afirma que, mesmo não sendo maioria entre os escritores no mundo, não são escassas as escritoras romani que se aventuram a escrever poesias, contos e romances de grande literalidade e engajamento social.

"São elas que carregam consigo a responsabilidade de transmitir a cultura, a tradição e os costumes para as novas gerações e que hoje são, visivelmente, as principais protagonistas das mudanças no seio do grupo étnico".

Paula Soria pôde observar ainda que a literatura ou a escrita não representam perda de elementos intrínsecos ao âmbito da oralidade, enaltecida pelos romà, mas permite o resgate e o registro da memória étnica e possibilita o reconhecimento desse povo perante a sociedade.

"Tenho interesse que conheçam outros aspectos do meu povo, da existência da literatura romani, do seu significado no contexto étnico atual. Dialogo com várias questões relacionadas a estereótipos, preconceitos, estigmas e a invisibilidade e silenciamentos históricos, tentando provocar também uma espécie de transformação do pensamento do leitor de minha tese ou dos artigos que penso escrever em relação aos romà", conclui.

Fonte: UnB Agência

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Ensino do pomerano em escolas de Santa Maria de Jetibá (ES) é tema de reportagem na TV Brasil


Conheça o pomerano, idioma europeu falado no interior do Brasil

Em Santa Maria de Jetibá, município serrano do Espírito Santo, grande parte das escolas ensina a língua pomerana. A região foi colonizada por imigrantes que vieram da Pomerania, um território entre o nordeste da Alemanha e o noroeste da Polônia.

Para manter a cultura pomerana, além do ensino nas escolas, a língua é falada dentro de casa, entre os membros das famílias.

Assista à matéria do Repórter Brasil (ou clique aqui):


Fonte: EBC

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Registro da Língua Talian como Patrimônio Cultural no Brasil é destaque no Jornal Nacional

Registro da Língua Talian como Patrimônio Cultural do Brasil é destaque no Jornal Nacional

Reportagem do Jornal Nacional (Rede Globo) de 31 de janeiro destacou o registro da Língua Talian como Patrimônio Cultural do Brasil. O Talian, juntamente com as línguas Guarani Mbya e Asurini do Trocará, são as primeiras línguas reconhecidas como Referência Cultural Brasileira pelo Iphan - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (ver notícia aqui) e agora fazem fazer parte do Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL). Essas línguas bem como os representantes de suas comunidades foram homenageados durante o Seminário Ibero-Americano de Diversidade Linguística, em Foz do Iguaçu-PR, no dia 18 de novembro do ano passado (ver notícia aqui).

Assista o vídeo com a reportagem aqui ou visualize abaixo.


Abaixo replicamos a notícia publicada no portal G1.

Dialeto derivado do italiano vira patrimônio cultural no Brasil

O Talian é falado por cerca de meio milhão de pessoas, principalmente no sul do país, e já tem até dicionário com mais de 40 mil verbetes.

Desde o fim do ano passado o Brasil tem um novo dialeto registrado como Patrimônio Cultural.

No jogo de cartas, quem será que está ganhando? Impossível saber, a menos que você entenda talian.

“A gente pegou hábito e fala o italiano e continua com o italiano",  diz um dos frequentadores da roda.

Eles e cerca de meio milhão de pessoas no país. Programas em talian vão ao ar em mais de 200 rádios brasileiras. Afinal, o dialeto nasceu aqui mesmo, depois da vinda dos imigrantes da Itália para o país.

"Essa mistura de dialetos do Norte e Nordeste da Itália com o português deu origem aquilo que hoje chamamos de talian", explica o professor Darcy Luzzatto.

O professor Darcy é autor do dicionário de talian, que tem mais de 40 mil verbetes, e prepara a primeira gramática da língua, que é comum principalmente no Sul do país. Em Serafina Corrêa, na Serra Gaúcha, o dialeto é a segunda língua oficial da cidade.

“Tem os nonos, que se sentem mais acolhidos quando a gente fala o dialeto com eles”, explica a vendedora Odete Lazzarotto.

Mas nem sempre foi assim. Nos anos 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, os cidadãos brasileiros foram proibidos de falar qualquer idioma vindo de países inimigos. E a Itália era um desses países. Por isso, imigrantes e descendentes passaram a ser vigiados pela polícia, para que não descumprissem a lei.

O nono Etelvino, patriarca da família Bazzo, conta que a lei durou pouco tempo, mas deixou uma herança de preconceito.

“Chamavam colono grosso porque ele não sabia falar ‘brasileiro’”, conta.

Por isso, o reconhecimento do dialeto como língua e referência cultural brasileira pelo Ministério da Cultura (MinC) no fim do ano passado pode ajudar a manter o talian vivo também entre os jovens.

“Sendo uma língua oficial, há um status diferente. Traz orgulho e traz uma consciência de que é uma outra língua, que não é o português. Se se fala o talian, se preserva toda essa cultura da imigração italiana no Brasil”, destaca Paulo Massolini, presidente da Federação das Associações Ítalo-Brasileiras do RS.

Fonte: G1

Notícias relacionadas:

Língua vai virar patrimônio cultural (reportagem veiculada em telejornal do SBT-RS em 19/11/2014)


Língua de imigrantes italianos se torna patrimônio brasileiro (reportagem veiculada no Jornal Hoje em 20/11/2014)


Fonte: e-Ipol.org

domingo, 25 de janeiro de 2015

A diversidade linguística como patrimônio cultural


Foto: Marcello Casal Jr_ABr
A diversidade linguística como patrimônio cultural

Ministério da Cultura inicia, por meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, política de reconhecimento das diferentes línguas e dialetos falados no Brasil através de processos de inventários, apoio a pesquisas, divulgação e promoção

Marcus Vinícius Carvalho Garcia

A diversidade linguística encontra-se ameaçada. Estima-se que entre um terço e metade das línguas ainda faladas no mundo estarão extintas até o ano de 2050. As consequências da extinção das línguas são diversas e irreparáveis, tanto para as comunidades locais de falantes, quanto para a humanidade. Essa percepção se encontra na Declaração Universal dos Direitos Linguísticos, elaborada na cidade de Barcelona, Espanha, em 1996, sob os auspícios da Organização das Nações Unidas Para Educação e Cultura (Unesco) e com a participação de representantes de comunidades linguísticas de diversas regiões do planeta. Segundo este documento, a situação de cada língua é o resultado da confluência e da interação de múltiplos fatores político-jurídicos, ideológicos e históricos, demográficos e territoriais; econômicos e sociais. Salienta que, nesse sentido, existe uma tendência unificadora por parte da maioria dos Estados em reduzir a diversidade e, assim, favorecer atitudes adversas à pluralidade cultural e ao pluralismo linguístico.


O Brasil figura entre os países de maior diversidade linguística. Estima-se que, atualmente, são faladas mais de 200 línguas. A partir dos dados levantados pelo Censo IBGE de 2010, especialistas calculam a existência de pelo menos 170 línguas ainda faladas por populações indígenas. Embora não contabilizadas pelo Censo, pesquisas na área de linguística também apontam para outras línguas historicamente “situadas” e amplamente utilizadas no Brasil, além das indígenas: línguas de imigração, de sinais, de comunidades afro-brasileiras e línguas crioulas. Esse patrimônio cultural é desconhecido ou mesmo ignorado por grande parte da população brasileira.

A historiografia do país demonstra que foi necessário considerável esforço do colonizador português em impor sua língua pátria em um território tão extenso. Trata-se de um fenômeno político e cultural relevante o fato de, na atualidade, a língua portuguesa ser a língua oficial e plenamente inteligível de norte a sul do país, apesar das especificidades e da grande diversidade dos chamados “sotaques” regionais. Esse empreendimento relacionado à imposição da língua portuguesa foi adotado enquanto uma das estratégias de dominação, ocupação e demarcação das fronteiras do território nacional, sucessivamente, em praticamente todos os períodos e regimes políticos. Da Colônia ao Império, da República ao Estado Novo e daí em diante.

Tomemos como exemplo o nheengatu, uma língua baseada no tupi antigo e que foi fruto do encontro, muitas vezes belicoso e violento, entre o colonizador e as populações indígenas da costa brasileira e de grande parte da Amazônia. Foi a língua geral de comunicação no período colonial até ser banida pelo Marquês de Pombal, a partir de 1758, caindo em pleno processo de desuso e decadência a partir de então. Foram falantes de nheengatu que nominaram uma infinidade de lugares, paisagens, acidentes geográficos, rios e até cidades. Atualmente, resta um pequeno contingente de falantes dessa língua no extremo norte do país. É utilizada como língua franca em regiões como o Alto Rio Negro, sendo inclusive fator de afirmação étnica de grupos indígenas que perderam sua língua original, como os barés, arapaços, baniwas e werekenas.

Processo similar, ou mais opulento ainda, ocorreu com a infinidade de línguas faladas na África e que foram também faladas no Brasil devido ao tráfico transatlântico. Línguas dos troncos ewe-fon, nagô-iorubá e, principalmente, as bantu foram sendo absorvidas pela língua portuguesa em processo similar ao ocorrido com as línguas indígenas, porém, deixando também sua influência principalmente na fonética, na onomástica e no vocabulário do português brasileiro.

Em outro plano, o Estado Novo, sob o comando de Getulio Vargas, também adotou medidas que geraram impactos nas línguas e culturas das famílias e comunidades imigrantes que chegaram ao Brasil em fins do século XIX. Havia a preocupação, de fundo racialista, com a manutenção da hegemonia da cultura brasileira forjada a partir dos moldes lusitanos. Temia-se a possibilidade de ebulição de movimentos separatistas, que se suspeitava poder aflorar nas colônias de imigrantes japoneses, alemães, italianos, poloneses, ucranianos, entre outras. Foi a escola o principal instrumento de imposição, onde se tornou obrigatório o ensino da língua portuguesa, desestimulando-se, ao mesmo tempo, o aprendizado e a utilização das línguas faladas pelo imigrantes.

Pode-se afirmar que é relativamente recente, do ponto de vista do Estado brasileiro, e mesmo dos Estados nacionais de modo geral, tratar a diferença étnico-cultural e linguística no campo dos direitos humanos. E isso envolve a percepção de que falar ou não determinada língua materna tem que ser uma escolha dos indivíduos, das famílias e das comunidades. Cabe, desse modo, ao Estado, tão somente garantir a liberdade dessa escolha e fomentar políticas voltadas para garantia desse direito.

Línguas como Patrimônio
Na última década tem havido grande mobilização de grupos, de organizações de falantes e de pesquisadores no sentido de associar a diversidade linguística como temática inerente a políticas de cultura, mais especificamente na esfera do chamado patrimônio imaterial. Essa mobilização motivou a elaboração do Decreto Presidencial 7.387/2010, que instituiu o Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL). O INDL nasce como política interministerial envolvendo Ministério da Ciência, Tecnologia e Informação (MCTI), Ministério da Educação (MEC), Ministério do Orçamento e Gestão (MPOG), Ministério da Justiça (MJ), sob coordenação atual do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), enquanto representante do Ministério da Cultura. Tem como princípios reconhecer as línguas como referência cultural brasileira, valorizando o plurilinguismo; apoiar os processos sociais e políticos que visem à promoção das línguas e de suas comunidades de falantes; pesquisa e documentação, bem como gerir um banco de conhecimentos sobre a diversidade linguística.

Um dos principais desafios para o reconhecimento das línguas minoritárias é constituir, com isso, direitos linguísticos, bem como a elaboração de estratégias que visem instrumentalizar as populações de falantes na preservação e na transmissão de seu patrimônio linguístico. Segundo Célia Corsino, diretora do Departamento do Patrimônio Imaterial/IPHAN, outro desafio é fazer do Inventário Nacional da Diversidade Linguística um instrumento includente e não discricionário, de modo que seja possível se inscrever no INDL todas as línguas faladas no Brasil, em sua plenitude ediversidade.

Importa salientar que a abordagem que o IPHAN está desenvolvendo para lidar com a complexidade desse tema é pautada na autodeclaração e na anuência dos grupos e comunidades de falantes, de modo que se aborde as línguas enquanto elementos de interesse cultural e de afirmação de identidades. Trata-se de uma estratégia voltada para a percepção do fenômeno linguístico enquanto produto de diversos fatores de ordem sociopolítica e não necessariamente como objeto de estudo de uma área acadêmica – a linguística –, que possui cânones e metodologias específicas de catalogação e classificação que nem sempre são inteligíveis para ospróprios falantes.

No entanto, acredita-se que o advento da política patrimonial da diversidade linguística chame a atenção para a necessidade de se ampliar os estudos de corte sociolinguísticos, de modo que seja possível levantar com mais exatidão quantas e quais são as línguas faladas no Brasil, bem como qual o tamanho do contingente populacional e quais as necessidades dos grupos de falantes que faz do Brasil um dos principais celeiros do plurilinguísmo na contemporaneidade.

O Vêneto Brasileiro
Outro caso relevante é o talian, uma língua forjada a partir do encontro, ocorrido em terras brasileiras, de imigrantes falantes de dialetos da região do Vêneto, na atual Itália, e que possui expressivo contingente de falantes no sul do Brasil. Atualmente, as línguas e os “modos de fazer” das comunidades que utilizam o talian são mais encontrados nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Há municípios, como Serafina Correa, no Rio Grande do Sul, em que o talian é língua oficial, assim como o português.

Estudos do Grupo de Trabalho da Diversidade Linguística (GTDL) aproximam estatísticas sobre cerca de 500 mil pessoas utilizarem o idioma no Brasil, em diversas regiões. Inclusive, há estações de rádio na região Sul e no sul da região Centro-Oeste em que se transmitem programas em italian. No Rio Grande do Sul, o idioma já é patrimônio cultural imaterial oficial. Ainda sobre a disseminação da língua, em 2013 foi lançada a revista Talian Brasil (talian.net.br). Alora, ou então, como se diz em português, não há motivos para não catalogar o máximo possível a cultura trazida por essas comunidades, pois o idioma já é considerado uma língua nacional brasileira (fonte: revista Talian Brasil).

A Sobrevivência dos Pomeranos
Ocorrem no Brasil atual casos como o da língua falada pelos pomeranos, que imigraram para o Brasil devido à Segunda Guerra Mundial, e que conseguiu manter-se viva em pequenas comunidades do Rio Grande do Sul e do Espírito Santo. Essa língua, em pleno uso e transmissão no Brasil, não é mais falada na Europa Central, sua região de origem. Após a guerra, a região onde ficava Pomerode foi incorporada à Polônia pela força do regime soviético. Quanto à etnia dos pomeranos, praticamente foi extinta e os sobreviventes dispersados pela Polônia. Mas a língua permanece viva no Brasil.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Rosângela Morello em entrevista sobre diversidade linguística ao programa Páginas de Português da RTP

Rosângela Morello em entrevista sobre diversidade linguística ao programa Páginas de Português da RTP

Fala de Rosângela Morello na entrega do diploma de reconhecimento da língua indígena Guarani Mbya no Seminário de Foz do Iguaçu (Fonte: Facebook de Maria Ceres Pereira)
A coordenadora-geral do IPOL, Rosângela Morello, concedeu uma entrevista o programa Páginas de Português, transmitido pela Rádio Antena 2, da Rádio e Televisão de Portugal (RTP).

O tema da entrevista é a importância do I Seminário Ibero-Americano de Diversidade Linguística, realizado em Foz do Iguaçu-PR, mês passado. Na entrevista, Morello destaca a importância do evento tanto como uma política de reconhecimento e conhecimento das línguas brasileiras por parte do Estado brasileiro, quanto de diálogo com outros países com suas respectivas iniciativas políticas concernetes à diversidade das línguas. A entrevistada discorre também sobre questões como o Inventário da Diversidade Línguística (INDL) e a cooficialização de línguas nos municípios brasileiros, a importância do espanhol nas regiões de fronteira entre o Brasil e países vizinhos, além da difusão e do futuro da língua portuguesa no mundo.

Ouça a íntegra da entrevista aqui

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Moradores da Serra Gaúcha tentam salvar o dialeto talian da extinção

Moradores da Serra Gaúcha tentam salvar o dialeto talian da extinção

Os adultos da família Isotton se comunicam em dialeto,
 mas as crianças, apesar de entenderem, resistem em falar.
O reconhecimento da língua como Patrimônio Imaterial do país traz a esperança de que ela renasça do declínio

Por Luísa Martins
Fotos: Anderson Fetter/Agencia RBS

Ainda gritado pelos nonos e nonas mas cada vez mais ausente do repertório das crianças, o dialeto talian, falado por mais de 500 mil descendentes da imigração italiana ao Brasil, está prestes a ser promovido ao status de idioma. No próximo dia 18, um certificado expedido pelo Ministério da Cultura (MinC) vai classificá-lo, em um movimento inédito, como Referência Cultural Brasileira —um título que sinaliza o percurso contrário ao silêncio e traz a esperança de que a língua, em declínio nas últimas décadas, se salve da morte.

A 95 quilômetros de Bento Gonçalves, Serafina Corrêa é a única cidade brasileira em que o talian é idioma co-oficial (lei municipal em vigor desde 2009). Ainda assim, a ritmada língua de erres acentuados e vogais bem pronunciadas está praticamente restrita aos ambientes domésticos. Os mais velhos falam, os adultos respondem e a gurizada, em geral, apenas entende.

— Eu tenho um pouco de vergonha de falar — confessa em português o estudante Enzo Isotton, oito anos.  

Dentro de casa, ele e o irmão Guido, seis anos, conseguem acompanhar o diálogo dos pais e dos avós. Moram todos juntos e, diariamente, dividem a mesma mesa de café da manhã, em um sobrado perdido na zona rural do município, a 10 quilômetros do Centro. Já ouviram, em talian, seu Jeronimo e dona Odila, ambos com 82 anos, contarem sobre o passado de lida no campo, rezarem a novena e reclamarem de uma época em que o acesso à educação era difícil. Na hora de parlar, porém, os meninos emudecem. A mãe, Daniela Ferrari, não tem dúvidas sobre o motivo.

— No colégio, os colegas debocham, riem, fazem piada. É o que acaba os intimidando cada vez mais — diz ela, com a propriedade de quem convive com a situação todos os dias, já que dirige uma escola de Ensino Fundamental.

A palavra para isso não tem origem italiana nem brasileira. O bullying se expressa sem que as crianças sequer tenham consciência de que o Brasil não é feito só da língua portuguesa (a Unesco calcula que, em todo o país, sejam falados 210 idiomas minoritários, 70 deles estabelecidos por imigrantes). Assim, quando algum aluno diz “zeito” em vez de “jeito”, logo começa o cochicho: está errado.

Em vídeo, veja o retrato do Talian:


— Acho que é um tipo de preconceito — afirma Daniela. — Ultimamente, as pessoas têm valorizado tanto quem sabe falar duas línguas clássicas, como português e inglês, por exemplo. Por que conhecer o português e o talian é visto de uma forma diferente?

Não há resposta certa, mas existem desconfianças. A suposição da ex-pesquisadora da Universidade de Caxias do Sul (UCS) Marley Pértile, doutora em Letras e especialista em Linguística Aplicada, com ênfase na área de Bilinguismo e Línguas de Imigração, é a de que, como há o italiano oficial, o talian é frequentemente tachado de língua falsa, um “dialetão de colono”. Visão equivocada, segundo ela:

— Se você se comunica através de uma linguagem, ela é legítima.

O escritor e professor Darcy Loss Luzzatto é o autor do dicionário
português-talian, uma das únicas obras disponíveis para
consulta ortográfica do idioma de imigração.
O receio em falar o talian, afirma o escritor e professor Darcy Loss Luzzatto, também pode ser um resquício da política de nacionalização implementada por Getúlio Vargas durante o Estado Novo, na década de 1940, em uma tentativa de silenciar qualquer língua que não fosse o puro português. Regiões de colonização estrangeira podiam ser secretamente inspecionadas — e não raro quem fosse flagrado conversando em talian, também chamado vêneto brasileiro, ia preso. Àquela época, Luzzatto, ao ajudar a atender um cliente do bar que o pai havia aberto na minúscula Pinto Bandeira (onde nasceu e hoje reside), ouviu:

— Ceo, dame un cichet de caciassa col fernet (Menino, me dá um traguinho de cachaça com fernet).

O homem foi levado pela polícia — uma memória latente até hoje para o escritor. Também não sai da lembrança o dia em que uma professora, na escola, disse que o talian era um dialeto de gente estúpida e ignorante.

— É aquela história: depois que o cara é massacrado, vira brigão — brinca ele, que do desrespeito à lingua-mãe fez nascer as três únicas obras da gramática taliana (Noções de Gramática, História e Cultura, Dissionàrio Talian-Portoghese e Dicionário Português-Talian) e que, toda segunda-feira, encara 100 quilômetros de estrada, ida e volta, para dar uma só aula de talian a um grupo de alunos de Serafina Corrêa, a maioria professoras do ensino básico.

A bibliografia elaborada pelo escritor foi uma das consultadas para a elaboração de um grosso relatório que, enviado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) sob a coordenação de Marley, então docente da UCS, radiografa a situação do talian no Brasil. A pesquisa realizada em 2009 aponta, por exemplo, que a perda linguística do talian de uma geração para outra pode chegar a 36% — uma queda significativa se comparada ao fim da década de 1980, em que um levantamento demonstrou perda inferior a 1%.

O documento foi a principal etapa de uma epopeia pelo reconhecimento. Começou em 2001, nove anos antes de o órgão criar o Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL). Entusiasta do talian, o escritor, poeta e hoje blogueiro em Erechim Honório Tonial, 88, descobriu que existia uma coisa chamada Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Ouviu sobre isso no rádio, durante a Voz do Brasil — noticiário tornado obrigatório, ironicamente, pelo mesmo Vargas que tentou encolher a italianice dos descendentes. Então, por meio da Federação das Associações Ítalo-Brasileiras do Rio Grande do Sul (Fibra/RS), enviou um ofício ao Iphan, que acolheu o pedido e indicou o dialeto como objeto para o projeto-piloto de inventário — com um aporte de R$ 150 mil do MinC. A esperada cerimônia de condecoração será em Foz do Iguaçu (PR), dia 18, durante o Seminário Ibero-Americano de Diversidade Linguística.

Para Paulo Massolini, presidente da Fibra, a oficialização do talian como idioma brasileiro — e primeira língua de imigração a ser reconhecida Patrimônio Imaterial do Brasil — abre precedente para que, finalmente, se reformule o programa de ensino das séries escolares iniciais. Atualmente, do primeiro ao quarto ano do Ensino Fundamental, os alunos têm aulas de italiano regular.

— Que nem de longe é o que representa a nossa cultura — afirma Massolini.

É que o talian surgiu de uma mistura. No século 19, a Itália era dividida por regiões, cada uma com seu dialeto particular. Recém-chegados ao Brasil em busca de um pedaço de terra em um país novo e ainda pouco desbravado, imigrantes de várias regiões (Lombardia, Trentino-Alto Adige, Friuli-Venezia Giulia, Piemonte, Toscana, Ligúria e, principalmente, Vêneto) foram postos em convivência pelos donos das colônias. Precisavam constantemente adaptar seus múltiplos falares para que conseguissem se entender.

— Aos poucos, palavras brasileiras foram sendo inseridas no vocabulário, mas com uma sintaxe veneta — explica o professor Luzzatto.

A palavra “tamanco”, por exemplo, em italiano fala-se “zoccolo”. No talian, acabou virando “tamanchi”.

No entanto, o que Luzzatto tem como grande trunfo do talian pode ser justamente o que, para a professora Marley, é o desafio de inserir o ensino do idioma na grade curricular do ensino básico:

— El talian se lo scrive come se lo parla e se lo parla come se lo scrive (O talian se escreve como se fala e se fala como se escreve).

— E, por isso, é difícil de ensinar — aponta Marley.

O talian é uma linguagem que ainda não está sistematizada gramaticalmente. Muito porque, até a década passada, existia apenas na fala. Era, em suma, uma língua oral, com palavras que, até hoje, permitem duas ou mais pronúncias diferentes.

Está com as famílias, portanto, o poder de resgatar o talian da queda, uma vez que fora de casa quem prevalece é o português. Segundo Marley, alguns fatores favorecem o sumiço gradual do dialeto — o mais importante deles: os pais estão deixando de falar a língua com seus filhos. Algo impensável na casa dos Ziliotto, também em Serafina Corrêa.

Albino e Zelinda Ziliotto culpam a tecnologia pelo
 desinteresse das crianças em valorizar o talian.
Seu Albino, aos 74 anos, não vai carregar qualquer parcela de culpa por deixar o dialeto esmorecer. Não só insiste no talian com seus quatro filhos, 13 netos e quatro bisnetos, mas também na manutenção dos costumes que herdou dos avós italianos. Cita alguns:

— L’è bisogno darghe un bon di, farghe na vìsita ai maladi, cognosser la colònia. Ghe ze gente che vien del paese che no sà gnanca cossa che sia un fogon a legna (Tem que dar bom dia, visitar os doentes, conhecer a roça. Tem gente que vem lá da cidade e não sabe nem o que é um fogão a lenha).

Ele e a mulher, Zelinda, presenças assíduas nos filós (encontros de famílias italianas, cheios de comes, bebes, cantorias e causos), tiram o sustento com a produção de queijos, salames e vinhos, entre outras iguarias tradicionais, e têm uma ideia fixa sobre quem é a verdadeira destruidora do talian: a tecnologia.

— A gente até tenta conversar com as crianças, mas depois que veio a tevê e o tal de computador, ninguém mais consegue a atenção da piazada — diz Albino, com a anuência de Zelinda.

O locutor e animador Edgar Marostica tenta ir na contramão. Palestras e programas de rádio posicionam o talian de uma maneira engraçada, mas no contexto da história dos imigrantes italianos na região.

— É uma maneira de, através de uma brincadeira, despertar as crianças para a importância da sua origem. O meu filho de dois anos entende tudo o que eu digo e já ensaia as primeiras palavras em talian — relata o humorista.

Do convívio com a avó, Simone se tornou fluente em talian,
 mas depois de ir para a escola, foi se aquietando: hoje, só fala o básico.
Algo que também aconteceu com a pequena Simone Bedin, seis anos. Está sendo alfabetizada em português, mas em casa, só fala o talian.

— É que a minha nona não entende outra língua — se explica.

Os avós da nona chegaram da Itália ao Brasil na virada para o século 20. Como não foi à escola e passou boa parte da vida ajudando os parentes a cuidar de um pedacinho de terra em Guaporé (cidade da qual Serafina Corrêa fazia parte antes de se emancipar), Antonia Bedin, 81 anos, não aprendeu uma palavrinha sequer em português. Dos diálogos em talian sobre o cotidiano das lidas campeiras, fez-se uma neta fluente no idioma imigrante.

Quando entrou na escola, dois anos atrás, a menina era uma tagarela do talian, conta a professora Isabel Bazza. Foi se aquietando ao longo do tempo e, hoje, fora do convívio familiar, só fala o bê-á-bá: nome, idade, comida preferida. Às vezes, como se um botão fosse acionado dentro dela, desata a falar, normalmente após o estímulo de um questionamento feito em dialeto. Se Simone ouvir alguém perguntando, em talian, quais bichos ela tem em casa, virá a resposta rápida (e um sopro de esperança aos que querem ver o talian renascer):

– Gat, can, galina, porco, vaca, beco (Gato, cachorro, galinha, porco, vaca, cabrito).

Fonte: Zero Hora

sábado, 18 de outubro de 2014

Viana do Castelo, Portugal: Relançamento de património imaterial Galego-Português

Viana do Castelo, Portugal: Relançamento de património imaterial Galego-Português

O presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo e presidente da Rede Internacional de Entidades Transfronteiriças - RIET, José Maria Costa, marcou ontem presença no décimo aniversário da apresentação da Candidatura do Património Imaterial Galego-Português da UNESCO, na sede do Conselho da Cultura Galega, em Santiago de Compostela.

A sessão, organizada pela Associação Cultural e Pedagógica Ponte…nas ondas! com o apoio de instituições da Galiza e de Portugal, integrou intervenções de representantes de várias entidades como do Museu do Povo Galego, da Secretaria de Política Linguística da Xunta da Galicia, Direcção Geral de Relações Exteriores e da União Europeia e do Presidente do Conselho da Cultura Galega.

De lembrar que, há dez anos, um grupo de professores da Associação entregou na sede da UNESCO em Paris a Candidatura do Património Imaterial Galego-Português, sendo a primeira a ser promovida por escolas dos dois países da União Europeia. A candidatura, que suscitou grande adesão na Galiza e em Portugal, defende a identidade história dos dois países: para além dos castelos, conventos e monumentos, também os sons, os gestos, os dizeres e a língua mostram uma identidade história para preservar enquanto elementos culturais delicados, postos em causa muitas vezes pela História.

A sessão comemorativa de ontem serviu para reavivar todo o processo de candidatura, que renasce agora com uma nova campanha.


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Espírito Santo investe na preservação da língua pomerana

Espírito Santo investe na preservação da língua pomerana

Aula de pomerano em Santa Maria de Jetibá
Idioma originário do norte da Alemanha continua vivo no interior capixaba, onde é língua materna de muitas pessoas. Aulas em pomerano e até um dicionário são iniciativas para a preservação.

Original da região da Pomerânia e hoje pouco conhecido na Alemanha, o pomerano, ou pomerisch, ainda está vivo no Brasil. O idioma é utilizado no dia a dia de muitas comunidades, em especial no Espírito Santo. Iniciativas de valorização ajudam a preservar a língua no estado, que abriga cerca de 120 mil dos estimados 300 mil descendentes de pomeranos no país.

Graças ao Programa de Educação Escolar Pomerana (Proepo), ir à escola já não é motivo de receio para diversas crianças que têm o pomerano como língua materna no município capixaba de Santa Maria de Jetibá. O idioma faz parte do dia a dia da cidade, onde 70% dos 34 mil habitantes são de origem pomerana.

Em 48 escolas do município, cerca de 3,5 mil alunos de até 15 anos participam do programa. Para os alunos da Educação Infantil e das séries iniciais, até o quinto ano, as aulas são ministradas tanto em português quanto em pomerano. Já nas séries finais do Ensino Fundamental, do sexto ao nono ano, os alunos têm uma aula semanal do idioma.

Além de Santa Maria de Jetibá, os municípios capixabas de Domingos Martins, Pancas, Vila Pavão, Laranja da Terra, Itarana e Afonso Cláudio já aderiram ao Proepo. Segundo a coordenadora do programa, Guerlinda Westphal, já se estuda ampliá-lo para toda a rede estadual.

Para Westphal – que é professora, descendente de pomeranos e aprendeu português somente na escola, aos 7 anos –, a consolidação e ampliação do Proepo é uma conquista. "É muito gratificante. Nossa cultura está sendo preservada, valorizada. A língua é um tesouro que nós temos", diz.

Atividades escolares ajudam a preservar idioma e cultura
Melhor desempenho escolar
Nas escolas de Santa Maria de Jetibá que passaram a ter aulas de pomerano, a melhora no desempenho dos alunos foi expressiva. Em 2008, ano de implementação do Proepo, o índice de aprovação no segundo ano (primeira série) das escolas que adotaram o pomerano foi superior a 80%, enquanto nas demais unidades de ensino foram registrados índices iguais ou inferiores a 50%.

O impacto maior ocorre nos anos iniciais de escolarização da criança. De acordo com Westphal, antes, as crianças chegavam à escola envergonhadas e desmotivadas, em especial os alunos da zona rural, onde quase não existe contato com o português.

O programa conta, hoje, com 15 professores itinerantes e seis regentes de classe. Todos eles já eram falantes quando participaram do curso de capacitação ministrado pelo mestre e doutor em etnolinguística Ismael Tressmann. Durante a formação, foram abordados aspectos históricos, culturais e linguísticos do povo pomerano, além das regras gramaticais.

Idealizador do projeto, Tressmann afirma que muito ainda precisa ser feito. "Uma hora de pomerano por semana na escola é pouco", afirma. Para ele, o ensino formal da língua é importante por dois motivos: por garantir seu registro e manutenção e por respeitar os direitos de todo ser humano de ser alfabetizado em sua língua materna.

Registros escritos
Além do ensino regular nas escolas, o pomerano é valorizado também por meio de publicações. Tressman lançou o dicionário enciclopédico pomerano-português, ou Pomerisch-Portugugijsisch Wöirbau. A obra, publicada em 2006, é resultado das pesquisas que ele começou em 1995 e contém 16 mil verbetes.

O professor publicou também o primeiro livro escrito em pomerano e editado no Brasil. Upm Land - Up pomerisch språk reúne textos de autores de origem pomerana sobre a vida no campo, com destaque para temas como agricultura, culinária, fauna e flora.

Antes de pesquisar sobre o pomerano, Tresmann trabalhou oito anos no levantamento de duas línguas indígenas sem grafia, onde adquiriu a experiência para fazer o mesmo com a língua pomerana. O doutor em etnolinguística explica que a proposta da escrita foi baseada na fonologia da língua, entre outros fatores.

Tressman sustenta que, ao contrário do que muitos pensam, o pomerano não é um dialeto do alemão. "São duas línguas que nasceram de modo diferente. A ancestralidade da língua pomerana tem a ver com o holandês, com o vestfaliano e até com o saxão antigo", argumenta. Todas essas línguas descendem do baixo-saxão, ou plattdeutsch, afirma o etnolinguísta.

O pomerano foi a primeira língua de imigração do Brasil a ser co-oficializada, juntamente com o português. Hoje, seis cidades têm o pomerano como língua oficial. São elas: Santa Maria de Jetibá, Domingos Martins, Pancas, Vila Pavão e Laranja da Terra, no Espírito Santo, e Canguçu, no Rio Grande do Sul.

Como parte do processo de oficialização da língua pomerana, foi realizado em Santa Maria de Jetibá um censo linguístico. Mais de 24 mil pessoas responderam ao questionário nas duas etapas do censo, em 2009 e em 2012. "Somos os primeiros a levantar dados concretos do número de falantes da língua pomerana no Brasil", afirma a pedagoga Síntia Bausen, que acompanhou o processo. A previsão é de que os resultados do censo sejam publicados até o final deste ano.

Professores foram capacitados para
lecionar pomerano em Santa Maria de Jetibá
Resgate da língua na Alemanha
No norte da Alemanha também há iniciativas para valorizar o pomerano e alguns dialetos do alemão. É o caso do projeto Pommersches Wörterbuch, na cidade de Greifswald, no estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, que coleta e documenta palavras para montar um dicionário.

De acordo com Matthias Vollmer, chefe do projeto, a presença do plattdeutsch nas escolas e universidades tem aumentado há alguns anos, o que também está relacionado com a Carta Europeia das Línguas Regionais ou Minoritárias, ratificada por Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental.

"Na Universidade de Greifswald, os estudantes de alemão podem ganhar um certificado em plattdeutsch como matéria complementar e futuramente lecionar nas escolas, como disciplina opcional", explica Vollmer. Ele também é professor de plattdeutsch e oferece seminários sobre a história e a literatura de dialetos no norte da Alemanha.

O professor destaca que foram lançados diversos materiais educativos para o aprendizado do plattdeutsch. Também está em andamento um projeto que promove o uso lúdico do pomerano e de dialetos do alemão em jardins de infância em Greifswald.

Pomerano no Brasil e no mundo
Em julho passado, foram comemorados os 155 anos da imigração pomerana no estado capixaba. A língua pomerana é falada também em comunidades de Minas Gerais, Rondônia, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Há relatos de que o idioma é falado também nos Estados Unidos e na Austrália. Na Alemanha, ele é hoje praticamente desconhecido. Segundo Vollmer, o pomerano é usado em algumas zonas rurais do norte do país, no estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental – principalmente pelos idosos, na família ou entre amigos.

O pomerano era uma língua oficial e escrita até o ano de 1600, de acordo com Tressmann. A língua era bastante utilizada no comércio marítimo na Idade Média. A palavra Pomerânia designa, até hoje, uma região no nordeste da Alemanha e noroeste da Polônia.

De acordo com uma pesquisa publicada em 2007, o plattdeutsch, que deu origem ao pomerano, é falado hoje, com fluência, por 2,6 milhões de pessoas no norte da Alemanha, onde outras 8 milhões o compreendem muito bem ou bem. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, cerca de 400 mil pessoas falam bem o plattdeutsch.

Fonte: DW

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Voz da colônia, radialista mistura português e japonês em programa

Voz da colônia, radialista mistura português e japonês em programa

Hashinaga começou no rádio
 em 1971 por hobby (Foto: Ariane Viana/G1)
Paixão pela música e pela comunidade mantém Paulo Hashinaga na ativa.

Ariane Viana
Do G1 Presidente Prudente

Há mais de 43 anos, o radialista Paulo Hashinaga se dedica ao trabalho diário em uma emissora de Presidente Prudentecom uma curiosidade: a junção da língua portuguesa e japonesa no mesmo programa. O trabalho começou como hobby em 1971 e fez, hoje, com que ele se tornasse uma espécie de porta-voz da comunidade nipônica no Oeste Paulista. O programa vai ao ar todos os dias, durante uma hora, e conta com assuntos de interesse da colônia, como eventos, notícias municipais e música popular japonesa.

A carreira do radialista começou a partir de um convite do amigo, o também radialista Kendi Sato. O profissional convidou Hashinaga para fazer uma participação na exposição agrícola na Associação Cultural Agrícola e Esportiva (Acae) em 1971.

“Nesse evento, eu comecei a ajudar na entrega dos prêmios e me mostrei interessado pela área. Foi, então, que perguntaram o porquê eu não fazia um programa, já que eu falava ambas as línguas. A ideia deu certo e amo o que faço até hoje”, contou o radialista nesta quarta-feira (18/06), quando são celebrados os 106 anos da imigração japonesa no Brasil.

Radialista é apaixonado pela música
 popular japonesa (Foto: Ariane Viana/G1)
Hashinaga relata ainda que, além do incentivo dos amigos, o que o mantém no ar diariamente é o fanatismo pela música. Paixão que vem antes mesmo do rádio e fez com que, nos anos 60, participasse de um grupo musical formado apenas por descendentes japoneses em Presidente Prudente. Ele tocava bandolim.

“Eu adoro música, tenho vários CDs, fitas, discos de música popular japonesa, então eu aproveito esse amor que eu tenho e divido com meus ouvintes”, disse.

Tanto tempo no ar é significado de sucesso para ele, que, com 82 anos, não pensa em desistir do trabalho. Ele comenta que todos os dias recebe ligações de toda a comunidade com elogios e sugestões sobre o programa em português e em japonês. “Gosto muito quando o público entra em contato comigo, isso me mantém ativo para fazer um programa melhor a cada dia”.

Em comemoração à chegada da imigração Japonesa no porto de Santos em 1908, o radialista fez um programa voltado a todos da comunidade, composto de celebração e muita música. “Fico muito feliz de poder ter um meio de contar um pouco sobre a história da chegada da imigração no Brasil e, hoje, fui ao ar transbordando alegria”, finalizou.

Nos anos 60, ele tocava bandolim em um grupo musical
 formado apenas por descentes japoneses (Foto: Ariane Viana/G1)
Fonte: G1

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Rádios do RS analisam jogos da Copa em línguas brasileiras de imigração

Rádios do RS analisam jogos da Copa em dialetos europeus

por Vanessa Kannenberg

Emissora de Bento Gonçalves transmite informações no dialeto italiano vêneto e em Westáflia, outra rádio divulga as notícias em sapato-de-pau, derivado do alemão. Ambas pelas ondas do rádio e também na internet

Em Bento Gonçalves, emissora vai fazer concentração em cantina com comida típíca italiana em jogos da Itália - Foto: Cesar Lopes / Especial
A Copa do Mundo volta ao Brasil depois de 64 anos, mas nem por isso tudo é verde e amarelo por aqui. A partir desta quinta-feira, com o apito inicial do campeonato, pelo menos duas rádios gaúchas dão o pontapé em programações especiais sobre o Mundial em dialetos europeus. 

Mais do que isso, o alemão sapato-de-pau e o italiano vêneto são referências até mesmo fora do país, mas que correm risco de se perder na globalização da cultura. E tem muita gente esperando pra conferir as transmissões especiais.

Assista ao vídeo com um programete gravado nos dois dialetos com tradução para o português:


A Copa em sapato-de-pau

Pelas ondas da Rádio Líder FM, na frequência 98,3, em Westfália, no Vale do Taquari, a comunidade descendente de alemães vai ouvir boletins ao longo da programação em Plattdüütsch, ou, simplesmente, sapato-de-pau. No município, o criador, proprietário e locutor da rádio comunitária, Ido Ahlert, 57 anos, estima que mais da metade da população de 2,8 mil habitantes entenda o dialeto.

— Muito já se perdeu, mas 60%, se não fala, ao menos entende. E tem muitos moradores, principalmente, os mais idosos, que só querem conversar em sapato-de-pau. Eles me ligam e pedem: jamais pare com o programa — comenta, orgulhoso, o comunicador.

Isso porque, mesmo fora do período da Copa, Ahlert mantém dois programas, um aos domingos de manhã, bilíngue, e outro nas segundas à noite, em sapato-de-pau, com informações, mensagens e música. 

Ahlert fundou a rádio há cinco anos e mantém estúdio em casa - Foto: Cesar Lopes
A iniciativa já lhe rendeu convites para ir a Alemanha, conduzir programas no dialeto, e, depois de estrelar o episódio O locutor da série comercial Brasileiros de Coração, do Banco Itaú, Ahlert também foi chamado por rádios nacionais para comentar a Copa.

— Não aceitei nada, porque meu lugar é aqui, junto da minha família e fazendo o que faço para agradar à comunidade. Tenho ouvintes fiéis também em outros Estados e fora do país, é pra eles que me dedico — resume Ahlert, já que a rádio, que fica no ar das 6h às 22h, é transmitida ao vivo pela internet.

Tendo aprendido com os pais e avós, e jamais na escola, o locutor desconhece como se escreve o sapato-de-pau ou até mesmo o alemão oficial, idioma que também domina. Mas está frequentando aulas sobre o dialeto, a cada dois meses, porque a vontade de ir além nunca acaba.

A Copa em vêneto

Da mistura do italiano oficial com o português, surgiu o vêneto, também chamado de talian, disseminado pelos imigrantes principalmente na serra gaúcha. O resultado, para os leigos, são frases fortes e cantadas formadas por várias palavras facilmente captadas por brasileiros. Esse é o dialeto que faz da Rádio Viva AM, 1070, de Bento Gonçalves, uma referência nacional graças à internet.

Nos anos 1980, a emissora chegou a ser 100% transmitida em vêneto. Mas a resistência de alguns foi fazendo com que o dialeto fosse perdendo espaço e, hoje, se resume a um programa diário de duas horas e outro aos domingos. O grande diferencial, implementado no início dos anos 1990, continua: transmissões de partidas importantes de futebol totalmente em vêneto.

— Já transmitimos a Copa da África, Libertadores, Copa do Brasil e todos os Gre-Nais e jogos importantes da região, sempre com muito humor — comenta um dos locutores da rádio, Itair Luiz Baldissera, 80 anos.

Ao lado de Rizzo, Pedro Vitor Rizzo, 58 anos, completa a dupla responsável pelas transmissões esportivas da Rádio Viva, de Bento, há duas décadas. Embora sejam só dois locutores, a inclusão de personagens, como a Nona Bambina, o Nono Nani e o Cigano, complementam as bem humoradas jornadas.

— Não temos a obrigação do jornalismo e da técnica nas jornadas, por isso não narramos lance a lance e conseguimos fazer só os dois. Abusamos do humor, de piadas e até cantamos durante os jogos, acho que é isso que cativa o público — completa Rizzo.

Pedro Vitor e Baldissera narram jogos em vêneto há duas décadas - Foto: Cesar Lopes
Nesta Copa, a emissora não poderá narrar a partida em vêneto, devido aos direitos de transmissão. Mas achou um jeito muito criativo de manter a tradição: nos dias de jogos da Itália, antes do início da partida, vai reunir locutores e ouvintes numa cantina, servirá queijo, salame e outros quitutes típicos italianos, junto de suco de uva e vinho. 

A concentração vai ser transmitida ao vivo pela rádio, com informações, palpites e humor em vêneto. No resto da programação, boletins e informações, também no dialeto, para a audiência acompanhar a Copa. E a torcida, é italiana ou brasileira?

— Tenho uma frase que virou bordão da rádio: o sangue é italiano e o coração é brasileiro. A gente torce em primeiro lugar pro Brasil e achamos que vamos ganhar. Mas se o Brasil não joga, a torcida é toda para a Itália — esclarece Rizzo.

Fonte: ZH